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Michael Jackson até os olhos

O entregador do gás que veio nesta manhã, 20 minutos depois do pedido, deve ter uns 20 e poucos anos. Com a destreza habitual …

O entregador do gás que veio nesta manhã, 20 minutos depois do pedido, deve ter uns 20 e poucos anos. Com a destreza habitual de quem já se habituou a levantar, como se fosse pluma, um botijão de 13 quilos ou mais , e subir escadas com ele no ombro, o moço fez a troca e depressa e, enquanto caminhávamos até o portão do edifício, comentei que era até bom andar assim, todos os dias, que faz bem e atrasa o que é fatal – enferrujar as juntas, principalmente depois dos 50.

Ele, então, com naturalidade e economia de palavras, adequadamente usou as poucas frases que trocamos para fazer gancho com o assunto do momento no mundo todo. “Pois é, a senhora vê. O Michael Jackson nem parecia ter 50 anos”, certamente se referindo ao tanto que o cantor se mexia. Não contente, emendou: “Ta certo que ele tomava muito remédio, mas ele tinha problema como se diz psicológico, de cabeça”.

Pronto: o entregador do gás se revelou um analista enxuto e capaz de, em poucas palavras e numa linha de raciocínio lógica, definir um mito. O que a grande maioria das mídias e dos colegas (diplomados) não conseguiu, consegue ou conseguirá. Se depender de Gilmar Mendes, o moço já pode ocupar uma vaga num dos nossos jornais, revistas, rádios ou tevês, ou quiçá, sites e blogs.

Nessas horas, tenho de engolir a raiva que me levou a bater boca em especial no twitter com gente enlouquecida para mostrar que está acima da média e que diploma de jornalista e papel higiênico serve para a mesma coisa. Porque, na verdade, quando desaba um fato da importância da morte de um ícone, mito, símbolo (e por aí vai a cantilena de adjetivos e definição) como MJ, é um Deus nos acuda, em especial nas grandes redes. Todo mundo fica lento, burro, indeciso, a gente percorre os endereços eletrônicos de jornais tidos como exemplo de bom jornalismo e a tela não muda, nada acontece de significativo. E quando finalmente confirma-se qualquer coisa, começa o festival de lugar-comum. O besteirol se instala, os arquivos voltam à telinha, overdose de coisas iguais, sem informação que importe, ao contrário, cuidando para não trazer o lado podre do morto para a linha de frente. Afinal, se o cara morreu virou santo.E o povo se refugia mesmo no msn e no twitter, para brincar de jornalista.

Por isso, acho que voe conseguir o nome e o endereço do entregador de gás para enviar às mídias e ao padrinho da nova classe de jornalistas sem-diploma, nosso querido dr. Gilmar. O resto, já pras panelas.

PS: espero não receber mensagens dizendo que não entenderam meu sarcasmo de fim de semana. Ou rasgo meu diploma!

Autor

Maristela Bairros

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