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Mirth

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Caro Senhor:

Sobre seu artigo denominado

‘O que há de errado com o mundo?’.      

Respondo: Eu.

Cordialmente,

G.K. Chesterton.”

 

***

Especialistas em literatura moderna afirmam que depois de “Ulysses” de James Joyce, o maior desafio para um tradutor são os 200 livros escritos por Gilbert Keith Chesterton entre 1900 e 1936. O que confirmaria um comentário sarcástico de George Bernard Shaw:

“- Tenho grande admiração pelos leitores de Chesterton

e muita pena de seus tradutores.”

Um chiste profético, se verdadeiro, pois tudo na vida e obra do filósofo, jornalista, poeta, ensaísta e ficcionista foi surpreendente. Não por acaso, ele era chamado de “Príncipe dos Paradoxos”, graças a polêmicas e irônicas frases como estas:

“Há duas maneiras de chegar em casa – uma delas é ficar lá.”

***

“Há apenas dois tipos de pessoas, aquele que aceita dogmas e sabe disso, e aquele que aceita os dogmas e não sabe disso.”

***

“Os ladrões respeitam a propriedade.

Eles apenas querem tornar sua a propriedade

dos outros para assim poder respeitá-la.”

 **

“Existem dois tipos de rebelião:

O primeiro é aquele em que o escravo exige algo que o tirano tem.

O segundo é aquele em que ele exige algo que o tirano não tem.”

***

G.K.Chesterton foi uma figura ímpar, célebre por seus comentários ácidos e irreverentes, mas igualmente conhecido por sua antológica distração – consta que certa vez, perdeu-se em sua Londres natal e precisou mandar uma mensagem para a esposa, perguntando como voltar para casa. Dono de uma inesgotável energia, publicou 275 obras, incluindo 80 livros, 200 contos, 4.000 ensaios, além de peças teatrais e poemas. Era também um paradoxo por si próprio. Tornou-se popular, graças ao divertido e intrigante Padre Brown, o personagem que despertou grande interesse dos leitores, gerando novelas que venderam como pão quente.

Mas ao mesmo tempo, era um polemista feroz, como se constata em   seu Ortodoxia, e também um ensaista brilhante, como comprovou em O Poeta e os Loucos e A Esfera e a Cruz. Este, um romance simbólico e apocalíptico, onde o escritor ataca de forma implacável, obsessiva – mas ao mesmo tempo, cordial – o ateísmo desvairado de seu tempo.        

Para o filósofo Gustavo Corção a obra Chesterton atinge seu apogeu com as biografias de São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino. Mas é em Ortodoxia onde se ocultam os mais enigmáticos paradoxos chesternianos. Por exemplo, quando usa palavras como Mirth para descrever a passagem de Jesus Cristo na terra. Trata-se de um termo intraduzível, que tanto pode significar alegria, riso, júbilo ou algo superior a isso, que o autor diz que esteve sempre presente mas misteriosamente oculto na vida de Cristo.                                

Quanto à Tomás de Aquino, GKC assim resume a essencial diferença entre Humanidade e Santidade:

“Todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem.”

***

Para Gustavo Corção, a desconcertante humanização que GKC cria em Francisco de Assis não conhece paralelo na hagiologia oficial da Igreja:

“Ele era um homenzinho fisicamente frágil e ativo, magro como um barbante e vibrante como a corda de um arco. E em seus movimentos, parecia uma flecha disparada pelo arco.

Toda a vida de Francisco foi uma série de saltos e carreiras: disparar atrás de um mendigo; ir correndo, despido, para a floresta; entrar escondido em um navio desconhecido; aparecer de repente na tenda do sultão e oferecer-se para se jogar na fogueira.”

(Aqui aparece novamente o paradoxo chesterniano: ele se refere à divindade humana à humanidade divina?)

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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