
“Caro Senhor:
Sobre seu artigo denominado
‘O que há de errado com o mundo?’.
Respondo: Eu.
Cordialmente,
G.K. Chesterton.”
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Especialistas em literatura moderna afirmam que depois de “Ulysses” de James Joyce, o maior desafio para um tradutor são os 200 livros escritos por Gilbert Keith Chesterton entre 1900 e 1936. O que confirmaria um comentário sarcástico de George Bernard Shaw:
“- Tenho grande admiração pelos leitores de Chesterton
e muita pena de seus tradutores.”
Um chiste profético, se verdadeiro, pois tudo na vida e obra do filósofo, jornalista, poeta, ensaísta e ficcionista foi surpreendente. Não por acaso, ele era chamado de “Príncipe dos Paradoxos”, graças a polêmicas e irônicas frases como estas:
“Há duas maneiras de chegar em casa – uma delas é ficar lá.”
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“Há apenas dois tipos de pessoas, aquele que aceita dogmas e sabe disso, e aquele que aceita os dogmas e não sabe disso.”
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“Os ladrões respeitam a propriedade.
Eles apenas querem tornar sua a propriedade
dos outros para assim poder respeitá-la.”
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“Existem dois tipos de rebelião:
O primeiro é aquele em que o escravo exige algo que o tirano tem.
O segundo é aquele em que ele exige algo que o tirano não tem.”
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G.K.Chesterton foi uma figura ímpar, célebre por seus comentários ácidos e irreverentes, mas igualmente conhecido por sua antológica distração – consta que certa vez, perdeu-se em sua Londres natal e precisou mandar uma mensagem para a esposa, perguntando como voltar para casa. Dono de uma inesgotável energia, publicou 275 obras, incluindo 80 livros, 200 contos, 4.000 ensaios, além de peças teatrais e poemas. Era também um paradoxo por si próprio. Tornou-se popular, graças ao divertido e intrigante Padre Brown, o personagem que despertou grande interesse dos leitores, gerando novelas que venderam como pão quente.
Mas ao mesmo tempo, era um polemista feroz, como se constata em seu Ortodoxia, e também um ensaista brilhante, como comprovou em O Poeta e os Loucos e A Esfera e a Cruz. Este, um romance simbólico e apocalíptico, onde o escritor ataca de forma implacável, obsessiva – mas ao mesmo tempo, cordial – o ateísmo desvairado de seu tempo.
Para o filósofo Gustavo Corção a obra Chesterton atinge seu apogeu com as biografias de São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino. Mas é em Ortodoxia onde se ocultam os mais enigmáticos paradoxos chesternianos. Por exemplo, quando usa palavras como Mirth para descrever a passagem de Jesus Cristo na terra. Trata-se de um termo intraduzível, que tanto pode significar alegria, riso, júbilo ou algo superior a isso, que o autor diz que esteve sempre presente mas misteriosamente oculto na vida de Cristo.
Quanto à Tomás de Aquino, GKC assim resume a essencial diferença entre Humanidade e Santidade:
“Todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem.”
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Para Gustavo Corção, a desconcertante humanização que GKC cria em Francisco de Assis não conhece paralelo na hagiologia oficial da Igreja:
“Ele era um homenzinho fisicamente frágil e ativo, magro como um barbante e vibrante como a corda de um arco. E em seus movimentos, parecia uma flecha disparada pelo arco.
Toda a vida de Francisco foi uma série de saltos e carreiras: disparar atrás de um mendigo; ir correndo, despido, para a floresta; entrar escondido em um navio desconhecido; aparecer de repente na tenda do sultão e oferecer-se para se jogar na fogueira.”
(Aqui aparece novamente o paradoxo chesterniano: ele se refere à divindade humana à humanidade divina?)
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