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Modo de vida americano

Sempre vejo nos filmes o orgulho com que se fala no modo de vida americano – o maior que vi atribuía o terrorismo à …

Sempre vejo nos filmes o orgulho com que se fala no modo de vida americano – o maior que vi atribuía o terrorismo à inveja do resto do mundo. Vejo também muitos brasileiros enaltecendo o modo de vida americano na hora de falar mal do Brasil. Mas tenho minhas dúvidas sobre o modo de vida americano, mesmo quando edulcorado por filmes que parecem feitos pelos três patetas num faniquito de patriotismo. Só de ver a cara de xerifes de cidadezinhas do meio oeste me dá medo. Xerifes reais e fictícios, note-se.

Pra começo de conversa, o modo de vida americano produz as obesidades mórbidas mais sensacionais. Olha, eu posso imaginar muitos paraísos, mas, confesso minha incompetência: nunca, nunca mesmo, poderia pensar num paraíso afogado em banha. Num inferno, sim. O mais aterrorizante nesse inferno é que nós o estamos copiando direitinho.

Tem outros dados preocupantes, como os assassinatos em massa. Quase todo mês um maluco entra numa escola e mata um punhado de gente e fere outro tanto. Como raramente se veem esses assassinatos em outros países, devemos contabilizá-los no modo de vida americano, junto com a preferência por hambúrgueres e bebidas gasosas, que Pantagruel e Gargantua tenham piedade das almas e das artérias gringas.

Mas é no dia a dia que a coisa periga de verdade: cerca de trinta pessoas são vítimas de homicídio por armas de fogo diariamente – são mortas por membros de gangues rivais ou traficantes, ladrões, bêbados depois de briga de bar, familiares enlouquecidos ou parceiros abusivos. Coroando esse horror, cerca de sessenta se matam por dia com armas de fogo. Isso mesmo, sessenta, e só com armas de fogo. Deixo pra imaginação de vocês as facas, drogas e remédios.

Na certa vocês já somaram dois e dois, mas não custa dizer com todas as letras o meu espanto: que merda de modo de vida é esse que leva sessenta pessoas por dia a meter uma bala no coco?

Claro, baby, ainda assim os Estados Unidos são a terra da oportunidade. O estranho é que na terra da oportunidade, um por cento da população é dona de quarenta por cento de toda a riqueza. E a tendência, segundo economistas como Paul Krugman, é esse um por cento se adonar de uma fatia maior ainda, sob as virtudes do mercado desregulado, outro traço importante do modo de vida americano ou da ganância desmedida considerada como o topo da busca da felicidade.

Raios o partam

O Brasil, sabe-se, é o campeão de raios. O Rio Grande do Sul, o campeão brasileiro. Maquiné, se não me engano, o campeão gaúcho. Por que não Bagé, Alegrete ou Passo Fundo, pra parecermos mais machos? Se o campeão de raios fosse Pelotas, iam dizer que era castigo de Deus, se é que Pelotas continua com a mesma fama das velhas piadas.

Mas não era disso que eu queria falar. Veja só, caiu um raio no medidor de raios de Porto Alegre, de modo que estamos há semanas sem saber de quantos raios escapamos. Tentei contar usando os dedos, como sempre, mas me perdi em seguida. Não é por nada que peguei várias recuperações em matemática.

Veja como são os preconceitos. Você lê a notícia de que um raio caiu no medidor de raios e pensa automaticamente: em que país isso poderia acontecer, a não ser no Brasil? É idiota, poderia acontecer em qualquer país, até na Noruega, Suécia, Dinamarca. Temos um pouco mais de chance apenas porque o número de raios é maior – e isso que não somos a pátria de Zeus nem de Thor. Não tem a ver com a gente gostar de futebol e carnaval, ou eleger o Sartori ou a Dilma, ou um raio não chamuscar a cara de pau do Cunha.

Sou o primeiro a defender o direito de se falar mal da pátria amada, salve, salve. Mas não me incluam naquele grupo que conta, com orgulho masoquista, a piada em que Deus, depois de criar a terra maravilhosa que é o Brasil, diz: espere pra ver a gentinha que vou botar lá. Não tenho saudade de minha origem europeia e tenho a ficha dos europeus. Povo nenhum tem o monopólio da violência, da miséria, da escrotidão ou das virtudes. Nesse ponto Deus foi de uma imparcialidade exemplar.

Dicionário do mau digitador

Aterrotizar. Aterrissar de mau jeito.

La siesta

Deu na BBC: “Começou nesta quinta-feira em Madri a primeira edição do Campeonato Espanhol de Sesta, que premiará o concorrente que melhor representar o costume nacional de tirar uma pestana na hora do almoço”.

Antes de mais nada, uma correção: a sesta é depois, não durante o almoço, a menos que seja uma sesta radical.

Acho ótimo. Nós, latinos, fomos detratados pelos protestantes que acham que fora do trabalho não há salvação. Agora os médicos apontam as inumeráveis vantagens da sesta, começando pela diminuição de problemas com a pressão arterial.

Moral da fábula: os cu de ferro morrem antes.

Autor

Ernani Ssó

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