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Mudança de ventos

Quem diria: Carta Capital tendo de reconhecer que, graças ao Jornal Nacional, a situação de Renan Calheiros “se complica”, conforme o título da matéria …

Quem diria: Carta Capital tendo de reconhecer que, graças ao Jornal Nacional, a situação de Renan Calheiros “se complica”, conforme o título da matéria de sua edição on line na tarde desta sexta-feira. Digo isso porque, faz tempo, Mino Carta e equipe batem direto de frente com o jornalismo da tal Vênus Platinada.

Nessas horas é que a gente vê que besteira é a história de jornalistas assumirem as brigas de seus empregadores. Há uma disputa não só mercadológica mas editorial (disputa seria um termo educado, acho que há mesmo é uma bronca mútua) entre as quatro grandes revistas semanais brasileiras – Veja, Isto É, Época e Carta Capital.

O que um publica, o ouro replica.

Houve época em que as capas e reportagens saíam quase padronizadas, evidenciando um sistema de espionagem grosseiro entre as publicações. A coisa mudou. Felizmente.

O cardápio hoje é mais variado, mesmo quando as mesmas grandes pautas se impõem.

Gosto muito da Carta Capital, em especial de alguns colunistas e particularmente de Thomaz Wood Jr., que consegue escrever sobre um tema árido e chato como gestão nos dando aula de cultura geral e de bom e limpo texto jornalístico.

O que me incomoda mais na revista de Mino, um cara admirável quanto mais não seja por sua história na imprensa brasileira, é um certo ranço gauchiste antigo, sem cintura. Se bem que tenho notado algumas oscilações tanto nas reportagens quanto nos editoriais, numa tentativa de, quem sabe, menos radicalismo e mais amplitude de campo de leitores e, provavelmente, de anunciantes.

O Blog do Mino, no site da revista, traz, no dia 13, a história Roberto e Vavá, em que o jornalista que praticamente criou inclusive a Veja conta um encontro com seu chefe, Victor Civita, durante o qual chamou o filho-herdeiro da Abril de cretino. No que foi corrigido pelo pai: “Não diga isso. Diga ingênuo.” Mino diz ter lembrado do fato ao ler as declarações de Lula sobre o mano-problema Vavá.

E fico eu, aqui, pensando o quanto de ingênuos esse pessoal que está lá no Cerrado pensa que somos. Calheiros teve, e está tendo, até agora, o benefício da dúvida. Toda a mídia que noticiou o seu possível envolvimento em operações ilegais com uma empreiteira que lhe teria pago contas pessoais pisou em ovos ao longo destas semanas. Mesmo Veja, que trouxe o assunto à tona, pegou mais leve que de costume (ou só eu reparei nisso?). Agora, para espanto geral, o Jornal Nacional larga na frente do jornalismo investigativo, que parecia condenado àquele quadro do Fantástico que o Caco Barcellos coordena com novéis jornalistas, e joga farinha no ventilador.

Com o que, para tristeza geral da imprensa que adora socar o plim-plim, fica estabelecido que sim, na Globo também se faz jornalismo consciente, factual, decente.

Uma coisa é certa. Renan pode, daqui para frente, fazer quantas coletivas quiser que o bolo já desandou. Pode até voltar. Como Maluf voltou. Collor voltou. Mas essa mancha não sai nem com stain eraser, aquela caneta milagrosa que limpa quase tudo.

Oxalá as mídias tenham fibra para ir adiante em sua caminhada para a luz do jornalismo claro, honesto e irretocável. Difícil, mas não impossível.

Autor

Maristela Bairros

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