Acaba de completar 70 anos um ícone do esporte: Muhammad Ali, ou Cassius Clay. Mas o motivo de eu reverenciá-lo nesta coluna é outro, qual seja a sua atitude.
Ele usou o esporte, sua fama e visibilidade para bater de frente com o status quo da época. Foi contestador, polêmico e principalmente de posições fortes. Direta, como os cruzados que aplicava nos adversários do ringue, levando-os a nocaute. Enfrentou o racismo, bateu de frente. Tornou-se Muhammad Ali, aderindo à religião muçulmana. Se negou a lutar na guerra do Vietnã(dizia ele: “Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, por que eu lutaria contra ele?”). Sem dúvida, é um dos grandes ícones do cenário mundial do século XX.
Mudando nosso cenário para os dias atuais, chega a dar vontade de chorar. Onde estão as lideranças nos esportes? Qual as grandes causas que assumem, em prol do desenvolvimento da sociedade? A recente morte de Sócrates pôs fim a outra carreira de desportista contestador e com atitude.
Claro que a sociedade mudou nas últimas décadas, desde que Ali desfiava seus golpes físicos e verbais. Estamos falando das décadas de 60 e 70. Porém, há valores que não podem ser perdidos. O da consciência de atletas e celebridades do seu papel social. Porque neste período, caiu o muro de Berlim e com ele também muitas das certezas. Assim, grande parte da humanidade está ávida por novos líderes que, como tal, as conduzam na direção da evolução. E quem são estes líderes?
Os atletas que conquistam a fama têm esta responsabilidade, queiram ou não. Mas o que vemos é um festival de posições inconsistentes, imaturas, pífias ou individualistas. Não há comprometimento algum com seus papéis sociais. Basicamente, o que se ouve e se vê dos jogadores é um festival de pagodes, música sertaneja, bonés e fones de ouvido gigantes. Entram em seus carrões, com vidros escuros e se vão. Falta coragem, atitude, interesse, comprometimento.
Justiça seja feita que alguns jogadores se envolvem em causas sociais, fazem visitas a hospitais, têm interesse em colaborar. Porém, eles o são em número tão pequeno que são quase imperceptíveis. Como a ordem mundial é econômica, ninguém quer se comprometer. Porém, acabam esquecendo que na batida em que estamos indo, em um mundo dominado pela falta total de solidariedade, pelo individualismo, regido unicamente pela economia, chegaremos rapidamente (será que já não chegamos?) a uma situação de deterioração moral, familiar, social e econômica sem precedentes. Se eles – e nós, obviamente – não tirarmos o dedo do umbigo e começarmos a olhar em volta e AGIR, teremos um mundo nocauteado.

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