Na contracapa de A estrada que não sabe de nada, editora Confraria do Vento, podemos ler várias frases elogiosas que foram inventadas pelas autoras, as artistas plásticas Ana Flávia Baldisserotto e Maria Helena Bernardes, ou por outros membros da gangue. Muita vagabundagem e pouca arte é uma delas, que aparece repetida. Na primeira vez, atribuída à International Art Critics Association, que dá meia estrela ao livro. Na segunda, atribuída à Ana Fátima & Marilene, “from International Nothingness Association”, que dá quatro estrelas e meia. Pode-se ver aí o bom humor e a provocação suave e alegre das autoras.
À medida que eu lia o livro, pensava sempre a mesma coisa: o Cortázar ia adorar essas duas. A coisa toda lembra algumas das atividades absurdas que os personagens do Cortázar botam em ação, como o jogo mortal de “Manuscrito hallado en un bolsillo”, um dos contos sensacionais de Octaedro, ou a brincadeira com os neuróticos anônimos em 62 — Modelo para armar, ou algumas das aventuras de Horácio Oliveira, em Rayuela, ou a grande e melancólica aventura do próprio Cortázar e Carol Dunlop em Los autonautas de la cosmopista. Coincidência nada estranha, tanto a BR brasileira como a autopista que vai de Paris a Marselha não sabem de nada e mantêm os motoristas e passageiros apegados ao asfalto, longe da vida misteriosa que começa mal você sai do acostamento.
Negócio seguinte: cansadas de tantos compromissos, Ana Flávia e Maria Helena decidiram tirar um dia de folga na semana pra caminhar pela cidade. Decidiram mesmo: nada — presumivelmente nem a invasão dos marcianos — as faria desistir da caminhada. Essa caminhada, note-se, não obedecia a um plano ou propósito. Elas simplesmente iam deixar rolar, pra ver o que aconteceria. Estariam abertas aos acasos e aos impulsos, na tocaia pra qualquer brecha na mesmice.
Talvez eu nem devesse dizer, porque vai ficar claro mais adiante, mas essa quebra na rotina não é uma quebra rotineira, como uma viagem turística. A quebra é da lógica do bom senso, da nossa tendência a fazer apenas o que tem utilidade ou talvez dê lucro, da diversão com preço e horário determinados. Quebrada essa lógica, pode ser o caos ou não ser nada ou ser a descoberta de outra, muito tênue ou clandestina, como o ritmo que anima uma dança em silêncio.
Foi assim que elas foram parar em Eldorado do Sul, cidadezinha próxima a Porto Alegre. A primeira pessoa com quem falaram por lá tinha uma casa pra alugar. Elas foram olhar. Não gostaram. Mas a pessoa indicou um conhecido que tinha uma melhor. Elas foram olhar, adoraram a casa e alugaram-na. Assim estabeleciam uma base. Pra quê? Saberiam quando acontecesse.
Tempos depois, descobriram uma espécie de gaiola gigante de ferro — conhecida pelos moradores como “engradado” —, na beira de um campinho de futebol. Foram informadas de que era a casa de um pônei. Mas o dono do cavalinho tinha comprado um terreno, que pagou da seguinte forma: um tanto em dinheiro, um tanto em Opala preto e um tanto em pônei. Quer dizer, a casa era só um trambolho que atrapalhava o futebol da garotada e estava à venda. Saber disso deixou Ana Flávia e Maria Helena entusiasmadas. Total, compraram o “engradado”.
Dias depois foram conhecer o pônei. O novo dono aceitara o bicho sem saber bem por quê. Como o pônei não servia pra nada e ainda precisava de ração e de quem o cuidasse, tentou vendê-lo até pela metade do preço. Ninguém quis. Então fez uma rifa e quem a ganhou, um sujeito de Porto Alegre, que mora num apartamento, também não queria cavalo nenhum, tinha comprado o número só por comprar. É isso mesmo: elas acabaram comprando o pônei, que, é claro, jamais voltou a entrar no “engradado”.
Assim, com uma coisa levando à outra, Ana Flávia e Maria Helena conheceram Eldorado pelo avesso, ficaram amigas de um monte de gente e terminaram donas de vários pôneis. Eu sou durão, mas, confesso, me emocionei com a compra do segundo pônei (uma pônei, na verdade), num subúrbio de Gravataí, numa tarde de chuva, o terreno onde a pônei morava com um prédio em construção. Me emocionei também com a situação cômica e sinistra das negociações frustradas na compra do pônei de um circo mambembe, onde entram uma menina palhaça, um carneiro taxista e tarado e uma leoa que morava num trailer e, conta a lenda, comia filhotes de cachorros.
Ana Flávia e Maria Helena não apelam nunca. Escrevem de modo contido e claro. Sabem que o que narram basta. A poesia e a emoção nascem por si mesmas.
Matutando
Sabem o que falta na literatura brasileira, ou pelo menos na minha? Mais vagabundagem e menos arte.
Lembrei de umas frases do Cortázar, em Rayuela, que sublinhei na adolescência. Traduzo aqui: “Para que serve um escritor se não para destruir a literatura? Método: a ironia, a autocrítica incessante, a incongruência, a imaginação a serviço de ninguém”.
Sim, o mais difícil é a imaginação a serviço de ninguém.

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