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Mulheres inteiramente nuas

Quando, meu Deus, não lerei mais livros com mulheres inteiramente nuas? Se estão nuas, só pode ser inteiramente, a não ser no caso daquela …

Quando, meu Deus, não lerei mais livros com mulheres inteiramente nuas? Se estão nuas, só pode ser inteiramente, a não ser no caso daquela bandida que o detetive encontrou usando lentes de contato, detalhe que apenas um detetive dos bons tempos poderia notar. Quando não lerei mais livros com personagens de rosto rubicundo? Não tenho a menor ideia do que seja rubicundo e me nego a consultar o Aurelião. Quando não lerei mais livros onde sempre tem alguém com olhar penetrante, queixo resoluto, perfil talhado a machado?

Quando as lágrimas deixarão de escorrer pelas faces, como se pudessem, por exemplo, rolar careca acima? Quando as lágrimas, quase sempre ardentes, não sulcarão mais as faces? Por que as pessoas, nos livros, não choram apenas? Quando as faces não terão peles apergaminhadas ou glabras ou acetinadas? Quando as peles deixarão de ser brancas como leite, como giz, como lírios, ou cor de cuia ou jambo?

Quando os sorrisos deixarão de distender os lábios, como se pudessem distender, sei lá, alguma outra parte menos mencionável de nossa anatomia? Quando os personagens deixarão de franzir o sobrolho, já que as pessoas têm, no máximo, cenho, coisa suficientemente horrível de se andar franzindo? Quando as testas — amplas, evidente — deixarão de se perolar de suor, ou mesmo perlar? Quando os olhos — glaucos, sempre glaucos — deixarão de brilhar e quando os escritores deixarão de ler esses brilhos como se lessem tratados de psicologia, ou confissões mais longas que as do Raskolnikov? Quando os personagens deixarão de olhar com seus olhos azuis, ou de qualquer outra cor, como se tivessem vários olhos de várias cores e pudessem escolher conforme o dia ou o clima da cena? Quando esses mesmos sujeitos deixarão de assentir com sua cabeça, como se pudessem assentir com a cabeça dos outros, ou levassem cabeças sobressalentes para situações escolhidas? E os pestanejos e pigarros, hem? Depois de certos livros a gente jura que diálogos sem pestanejos e pigarros só existem na realidade.

Quando os cabelos deixarão de cair sobre os ombros das heroínas? Em casos de maior gravidade literária caem em cascata sobre os ombros. Isso sempre me lembra uma jornalista desta praça que descreveu um camelô com tanta caspa que ela lhe “caía feito garoa sobre os ombros”. Mas, no caso da caspa líquida, se entende, não?

Há escritores que eu tenho vontade de agarrar pelo pescoço, com as duas mãos. Mas a gente tem mais de duas, para ter necessidade de frisar o detalhe? Mesmo que as duas mãos pareçam dar maior força ao gesto, fica esquisito. Alguns autores de ficção científica se divertem com isso, na hora de descrever alienígenas. Eu lembro sempre dos polvos. É que uma vez me disseram que o oitavo tentáculo do polvo é o chamado membro viril. Mas, cabe a pergunta: começando a contar de onde? Imagina se a gente não está dando bom-dia pra ele?

Quase nunca amanhece ou anoitece, na literatura. Quase sempre o dia nasce e a noite cai. Raramente cai “feito um viaduto”. Noite escura é quase que uma palavra só, como disse o crítico César Fernández Moreno. E o céu? Ao menos esqueceram aquele apelido horroroso: abóbada celeste. O céu tem uma tendência miserável a ser salpicado de estrelas, ou polvilhado, ou qualquer coisa, menos estar estrelado. Mas uma vez, em Anthony Burgess, o céu era fervente e, em Curzio Malaparte, coaxava como um brejo. A lua, pobrezinha, é o alvo predileto de todo imbecil que tem uma caneta na mão ou um teclado por perto. E o sol é inclemente, claro — coisa de apavorar carecas e vampiros.

Quando, meu Deus, não lerei mais livros com mulheres inteiramente nuas? Nunca, eu acho. Por mais que um escritor se cuide, sempre escapa uma que outra mulher inteiramente nua. Certas palavras, certas ações são como sinetas — e nós abanamos o rabo e latimos alegres para Pavlov. Não sei se isso é grave. Há muitos bons livros cheios de mulheres inteiramente nuas. Mas é aquilo: quando a gente começa a notar essas senhoras num texto é como se estivéssemos conversando com uma pessoa cheia de cacoetes. Dá um nervoso.

Tem também as mulheres inteiramente nuas das ideias. Essas sim são mulheres fatais. Essas sim são fogo. Agora, é interessante notar, as mulheres inteiramente nuas das ideias andam quase sempre de mãos dadas com as mulheres inteiramente nuas da linguagem.

Autor

Ernani Ssó

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