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Mulheres inteligentes

Um conhecido me disse que não dava pra acreditar nas minhas personagens femininas, quase sempre inteligentes e bem-humoradas demais. Respondi na bucha: “A culpa …

Um conhecido me disse que não dava pra acreditar nas minhas personagens femininas, quase sempre inteligentes e bem-humoradas demais. Respondi na bucha: “A culpa é tua, que andou com as mulheres erradas”.

Bafafá velho 

Uma vantagem da internet sobre os jornais em papel é que a gente está em busca de uma coisa e acha várias outras muito mais interessantes. Esses dias, procurando não me lembro o quê, topei com um texto de Sírio Possenti sobre a reação raivosa de muitos jornalistas a um livro distribuído pelo MEC que, diziam eles, ensinava as crianças a falar errado. Sim, me refiro ao caso que ficou conhecido como “Os livro”. Sobrou também pros linguistas: eles aceitariam tudo na boa.

Sírio explica com clareza e humor o trabalho de um linguista. Eles não aceitam tudo, eles constatam como as pessoas falam. É o mesmo caso de outros cientistas, ou um botânico aceita a cor amarela do girassol? Tem mais: as regras da língua culta foram estabelecidas por algumas pessoas. Essas regras mudam com o tempo. Se compararmos duas línguas, nota-se que o que é errado numa pode ser certo em outra. Segundo a gramática, embora sem uma explicação plausível, em português não devo começar uma frase do tipo “Me lembro”. Em espanhol, eu posso. Em alemão, me disseram, pode-se separar sujeito de verbo com vírgula. Em inglês, está certo dizer “o livros” (“the books”), coisa que em português nem o mais analfabeto diria.

Professor nenhum precisa ensinar uma criança a dizer “os livro” porque ela já sabe. Vai ensinar “os livros”, mas sem esfregar o plural na cara da criança. Aprende-se melhor sem humilhação, como demonstram vários estudos de educação. Ensinar humilhando é ensinar antes a humilhação. Vide os quartéis. Daí a não se falar em erro, mas em variantes na fala e na escrita. Grosseiramente, duas, uma culta e uma popular. Só que as variantes variam muito, dependendo da situação. Mesmo você usando todos os plurais, não pega bem escrever um ofício ao presidente com o tom e a linguagem que uso aqui. Como ninguém, a menos que seja meio tantã, vai ter uma conversa informal usando juridiquês, por exemplo.

Outra coisa: esses jornalistas que chiaram bem alto não entenderam o texto do dito livro. Se eles leem (agora o certo é sem acento, confere?) tão mal, que cacife têm pra reclamar de certo e errado na língua? Fui atrás do trecho fatídico e não é que Sírio tem razão? O livro não manda professor nenhum ensinar “os livro” ou “nóis pega”. Apenas faz a mesma constatação explicada por Sírio e mal resumida por mim.

É pouco? Esses jornalistas e outras pessoas demonstraram comicamente que não sabem usar a norma culta numa situação que, cá pra nós, pedia a correção formal. Vejamos: Alexandre Garcia começou um comentário irado com “quando eu tava na escola”; uma carta de leitor criticando a forma “os livro” dizia que “ensinam os alunos de que se pode falar errado”; uma professora entrevistada na tevê disse “a língua é onde nos une”; e Carlos Monforte perguntou: “Onde fica as leis da concordância e regência?”. Marcos Bagno, da UNB, em outro belo texto, dá o troco: “Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: ‘E as leis de concordância e regência, onde é que ficam então?’”.

Pra mim, um bom texto e uma boa fala são claros e expressivos. As titicas — tinha crase ou não, é aqui mesmo que vai esse pronome? — os revisores resolvem. Tem mais: há bons escritores que também são bons revisores. Mas há centenas de milhares de excelentes revisores que nem chegam a ser escritores.

Autoajuda

Sempre achei engraçados aqueles conselhos, em geral religiosos, que nos mandam olhar a natureza na hora da angústia. Sim, veja a beleza de uma gota de orvalho, o brilho das estrelas, os campos floridos. Então, diante do milagre da vida, você não se sente um pateta por estar angustiado porque a filha da vizinha preferiu dar pra outro? Olha, por mais bonito que seja um campo florido, eu prefiro dar uns amassos na filha da vizinha. No que uma abelha não concordaria comigo, confere? Cada um com sua fome e cada fome na sua hora.

Autor

Ernani Ssó

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