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Não empresto discos

Acordei animado naquela manhã de sábado, início dos anos 70. Como na canção de Gonzaguinha, eu era um garoto que acreditava na vida, na …

Acordei animado naquela manhã de sábado, início dos anos 70. Como na canção de Gonzaguinha, eu era um garoto que acreditava na vida, na alegria de ser, nas coisas do coração. Era ingênuo, no bom e no mau sentido. Vesti-me e fui para a escola, que ficava no fim de minha rua. Haveria uma série de atividades preparatórias para uma festa que seria realizada à tarde. Depois de treinarmos algo como canções de coral, discursos ou jograis, as professoras se retiraram. Alguns meninos e meninas de minha turma decidiram permanecer na salinha da casa paroquial para ensaiar dança de salão. Como eu era o que morava mais perto, ou o que morava perto e tinha discos, fui escalado para ir apanhá-los. Fiquei contente. Eles dependiam de mim. Além do mais, talvez eu pudesse dançar com uma garota pela qual eu tinha especial e platônico interessse.

Quando retornei, ofegante da ida e volta em passo acelerado, a porta estava fechada, tive de bater para que a abrissem para mim. Queriam um ambiente menos claro e mais privado, longe dos olhos dos padres e das freiras que poderiam passar por ali. Ao entrar, tomaram-me das mãos a pilha de LPs e compactos e me agradeceram num tom que indicava que eu estava dispensado. Os pares já haviam sido formados, dançavam de rosto colado, como se dizia na época, e eu sobrara, informaram-me. Senti lágrimas ameaçarem escorrer por meu rosto e corri para fora. Nem lhes dei o trabalho de me expulsar. Não poderia pagar aquele mico, a despeito da humilhação que me fora imposta.

Depois de refletir por alguns segundos, arremeti sala adentro e confisquei todos os discos, inclusive o que estava tocando, e saí em ritmo acelerado. Creio que a perplexidade, ou a fúria em meus olhos, os impediu de me deter. Corri para casa, guardei os discos e me tranquei no quarto. Em instantes alguns colegas chegaram ao portão de minha casa querendo negociar, mas era tarde. Até minha mâe deve ter me achado intransigente. Não contei pontos com a tal garota, mas ela não me daria bola de qualquer forma.

Mal sabia eu quantas vezes na vida seria convidado a emprestar meus discos e dispensado da dança. Políticos agem assim depois de eleitos, filhos depois de criados, empregadores depois de terem seus projetos implantados, amigos depois de se distanciarem socialmente.

Não é diferente o comportamento da mídia. Como putas depois de garantirem o cachê, quando a voz se torna menos aveludada, braços e pernas menos insinuantes, e o cliente já não é aquele docinho todo, a imprensa dispensa às vítimas de tragédias tratamento de roupa da moda, colocada na vitrina até a semana que vem, enquanto enriquecem os barões. Nem sei como poderia ser diferente, com tanta coisa acontecendo, e com o público sendo mesmo isso, um voraz consumidor de dor e gozo alheios. Faltaria espaço para se insistir em muitos assuntos que não deveriam ser esquecidos. E a vida é assim, uma interminável sucessão de gozos e tragédias, nossas ou alheias. Um ataque ao Iraque faz esquecer as torres gêmeas, como a onda gigante faz esquecer o Bush, e assim se vai, until the bitter end.

Síndrome de Ano Novo, acho. Depois passa.

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* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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