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Não protestei

Confesso, não fui pra rua protestar. Me sinto cansado – eu que não aceito nada sem espernear, às vezes apenas pelo prazer de espernear. …

Confesso, não fui pra rua protestar. Me sinto cansado – eu que não aceito nada sem espernear, às vezes apenas pelo prazer de espernear.

Nenhum gesto meu serviu pra grande coisa em toda a minha vida, nenhuma palavra minha serviu pra nada, fora arrumar inimigos. Eu soube disso desde sempre, mas me animava a petulância do cavaleiro com os braços e as pernas decepados, no filme do Monty Python, Em busca do cálice sagrado, gritando pro seu adversário algo do tipo: “Volta aqui, seu covarde! Lute como um homem!”. Agora, o cavaleiro sangra quietinho no seu canto. Talvez seja passageiro, penso. A minha esperança é a esperança do velho na fila no SUS.

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Estou cansado dos rebeldes-Miami, cansado dos seus cartazes em inglês, dos pedidos de volta da ditadura em nome da democracia, cansado do seu grito: “Vai pra Cuba!”. Por que uma ditadura é ruim em Cuba mas seria bem-vinda no Brasil?

Se eu gritasse: “E você, vai pra Miami!”, talvez fosse linchado. Sim, não há comparação, os EUA são uma democracia. Lá há lei. Lá a coisa funciona. Mas lá um candidato à presidência fraudou uma eleição e tudo ficou por isso mesmo, lá os culpados pela trapaça que desencadeou a crise de 2008 não foram presos, alguns até arrumaram cargos no governo Obama. A democracia americana funciona que é uma beleza – nos filmes. Nós não devemos imitar a democracia real americana e sim a de Hollywood. Aí, sim, meu amigo, o bicho iria pegar.

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A ditadura brasileira, segundo seus defensores, veio pra afastar o perigo vermelho e acabar com a corrupção. Estou lendo Combate nas trevas – A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada, de Jacob Gorender, historiador e velho militante do PCB, e estou pasmo: a inépcia dos comunistas era tamanha que eles não tinham chance nem de depor o síndico do edifício. Quanto à corrupção, sabe-se: todas essas empreiteiras que estão no meio dos escândalos de hoje enriqueceram à sombra dos quartéis, vários políticos são filhotes da ditadura ou descendentes deles, e vários têm casa em Miami. A volta da ditadura é bem-vinda pros mesmos (ou do mesmo naipe) que faturaram antes, continuaram faturando depois e querem seguir faturando, talvez por causa de três vantagens inigualáveis: aí a polícia federal não investigará, os jornais não publicarão nada porque serão censurados e se reduzirão as migalhas que caem da mesa pra patuleia e pros cachorros.

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O protesto dos rebeldes-Miami contra a corrupção tem sua graça. Grande parte dos apontados como corruptos são da mesma turma, alguns até são vizinhos em Miami. A indignação dos rebeles-Miami é seletiva, como nossa imprensa, que também faturou com a ditadura, tem negócios com os rebeldes-Miami e tem contas secretas na Suíça, vide a gentinha da Folha de S. Paulo, da Globo, da Abril e da Band. Mas quando os rebeldes-Miami se olham no espelho só enxergam petistas. Por que será? É cinismo ou loucura ou burrice? Ou lacerdismo puro e simples? Estou cansado de ver a política ou o próprio país como uma disputa de torcidas de futebol. Estou cansado de ver gente – até gente de quem eu gosto – se comportando como manada. Entre todas as manadas, a humana é a mais perigosa, sabe-se.

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Estou cansado da indignação seletiva. Se aponto um corrupto que não é petista – e são muitos, porque são muitos os partidos –, sou acusado de ser petralha. Mas eu não sou petralha, nem tucanalha. Eu não assinei carteirinha de partido nenhum, embora simpatize com o Movimento Pela Libertação dos Anões de Jardim. Como disse um político americano sobre um ditador latino: “É um filho da puta, sim, mas um dos nossos filhos da puta”. Tou fora, meus amigos. Eu não tenho filhos da puta próprios.

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Estou cansado do argumento de alguns petistas: na hora em que criticamos corruptos petistas, estamos dando munição pros inimigos do partido. Não, não. Quem dá munição pros inimigos do partido são os correligionários que meteram a mão na massa. Eles sim deviam ter pensado antes nas críticas.

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Eu poderia ter ido pra rua protestar contra a Dilma. Ela não está suficientemente à esquerda pro meu gosto. Estou cansado porque sei, se ela fosse porrada como eu gostaria que fosse, não teria sido eleita. Ou, em caso de eleita, não teria durado uma semana no poder. Estou cansado da resignação ao pragmatismo.

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Estou cansado de ver a Dilma ser chamada de vaca. Tem horas que me parece que isso acontece mais por ela ser mulher, mas não me lembro de que Roseana Sarney tenha sido chamada de vaca, ou foi? Também não me lembro de ver o FHC ser chamado de filho da mãe, quando comprou a reeleição e vendeu o que pôde. Nem me lembro de ver ninguém chamar de filhos da mãe homens como Maluf, Renan Calheiros, Sarney, Eduardo Cunha. Estou cansado da falta de educação seletiva.

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Estou cansado de trabalhar demais e ganhar de menos. Estou cansado de escrever num país em que livro é luxo. Estou cansado do analfabetismo funcional de jornalistas, políticos e comentadores na internet. Estou cansado de sentir que o Brasil, ou o mundo todo, sempre esteve acima das minhas forças e começa a estar acima da capacidade do meu saco.

Autor

Ernani Ssó

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