“Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente”
Chico Buarque
O Brasil finalmente respondeu à altura. Durante décadas convivemos com a sombra permanente dos quartéis e do grande capital que insiste em se comportar como proprietário do país. Assistimos a movimentos explícitos e silenciosos de pressão, chantagem, tutela e intervenção. Vimos governos eleitos precisarem negociar sua própria sobrevivência diante de generais que confundiam autoridade com autorização e empresários que tratavam a República como se fosse um departamento das suas corporações. Essa lógica finalmente começou a ruir.
A prisão dos generais envolvidos na tentativa de golpe e a prisão de Bolsonaro representam um divisor de águas. Pela primeira vez, desde a redemocratização, o Brasil afirma de forma concreta que suas instituições não estão mais disponíveis para serem capturadas por quem acredita estar acima da lei. O que aconteceu foi mais do que a punição de indivíduos que conspiraram contra a vontade soberana do povo. Foi a comprovação de que nossa democracia amadureceu e que o país não aceitará retrocessos impostos por quem se julga dono do Estado.
Quando as instituições funcionam, a nação respira. E respiramos. O Estado brasileiro demonstrou dependência de si mesmo e não de quartéis ou escritórios de grandes conglomerados. Foi a afirmação clara de que o Brasil não é subordinado às alucinações de militares que ainda vivem mentalmente em 1964, nem às pressões do capital estrangeiro ou dos magnatas nacionais que lucram com instabilidade, submissão e medo.
Este momento é, sobretudo, uma homenagem. Uma homenagem a todas as pessoas que resistiram à ditadura. A quem foi preso, torturado, perseguido e silenciado. A quem perdeu pais, filhos e irmãos. Aos professores expulsos das universidades por ensinarem pensamento crítico. Aos políticos cassados por ousarem defender liberdade. Aos artistas que não se curvaram frente aos anos de chumbo. A todos que carregaram no corpo e na memória as marcas de um país que já foi sequestrado pela violência de fardas e por interesses econômicos escusos.
Com a prisão dos generais golpistas e de Bolsonaro, respiramos de novo o ar da liberdade. É o começo de um novo capítulo da história brasileira, um capítulo que simboliza que somos, enfim, uma democracia soberana e adulta. Um país que não se curva à tutela militar e que não se ajoelha diante do capital que se imagina herdeiro da nossa nação. Um país que decide o próprio destino. Um país que finalmente entendeu que só existe desenvolvimento quando existe liberdade. Um país que disse: Agora Não! Nem hoje, nem nunca mais!


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