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Nestas horas que a gente vê

O verdadeiro valor da vida já mereceu inúmeras definições. De um modo geral, são relacionadas a coisas simples, mas fundamentais. Algo tipo o abraço …

O verdadeiro valor da vida já mereceu inúmeras definições. De um modo geral, são relacionadas a coisas simples, mas fundamentais. Algo tipo o abraço de um filho, o sorriso de um amor, um dia bonito de sol. Mas existem momentos em que a gente faz um pit stop da correria diária e se dá conta de que tudo não tem sentido senão para sermos felizes.

A queda do vôo da Air France é uma daquelas ocasiões em que forçosamente somos assaltados pelo nosso lado mais humano e sentimental. Porque são muitas mortes de uma vez só, porque são mortes em um momento inesperado, de forma abrupta. Na realidade, uma viagem de avião para a França sugere muito mais uma coisa de alegria (Paris, cidade-luz) do que de trabalho. Não estou afirmando que era um vôo de férias. O que digo é que, top of mind, o que vem primeiro à mente se pensamos em um vôo para a França?

Pena que estes “pit stops da vida” de um modo geral nos ocorram somente diante de uma grande perda ou a ameaça de uma grande perda acontecer. Não deveríamos esquecer jamais o valor de um sorriso, de um abraço apertado. Mas, correndo no dia-a-dia, esquecemos, sim. Que atire a primeira pedra quem não vive assim. Ainda mais no mundo individualista de negócios.

Porém, sou daqueles Dom Quixotes que acreditam que o ser humano está melhorando. Agindo com mais humanidade. Uma mudança bastante lenta, mas em curso. Motivada pela questão econômica, pela violência urbana, não importa. O fato é que o ser humano está sendo forçado a mudar seu modo de viver em sociedade e mesmo sua postura frente ao nosso planeta.

Quando acontece uma morte, sempre pensamos que tínhamos tanto para dizer para aquela pessoa que se foi, ainda mais quando é uma morte que ocorre de forma inesperada. Mas e por quê não dizemos quando a pessoa está viva mesmo? Certo, é pela correria do dia-a-dia, mas qual o sentido de tudo isto se não o de sermos mais felizes? Corremos para quê?

A partir da perda é que juntamos os caquinhos e tentamos nos reerguer. E neste juntar de caquinhos encontramos pessoas importantes, valorosas. Mas também encontramos pessoas desprezíveis e que, se morressem hoje, não fariam nenhuma falta à humanidade, muito pelo contrário.

Os leitores me perdoem o tom depressivo desta coluna. Mas não consigo abordar uma questão dura como uma perda como algo leve. Meu pai, que era arquiteto, tinha um cartão postal, a fachada de uma casa antiga, desenhada em preto e branco. Abaixo, uma frase: Cada casa velha que cai leva consigo um pouco da alma da cidade”. Traçando um paralelo com o avião que caiu no Atlântico, foram muitas as casas que caíram no mar, levando junto um pouco de nós. Ou muito.

Autor

Flavio Paiva

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