Esses tempos confessei aqui que sou muito, mas muito chato em matéria de ficção, porque cada vez menos contos, novelas e romances são capazes de me levar na conversa. Então o blogueiro literário Charlles Campos comentou que “chato em excesso em matéria de ficção talvez seja [sinal de] que você tenha uma fonte de referência muito limitada, ainda mais pelo que vejo em seus post[s] que[onde], fora tratar dos mesmos autores canônicos (Borges, Cortázar), você [mostra que] tem uma incurável queda por escritores de terceiro time”. Gostei da observação – ela parece verossímil. Parece, mas é de alquimia, como diria o Cervantes. Não é culpa do Charlles, porque ele pensou em cima das poucas informações que pescou numa dezena de colunas e escreveu às pressas, como se vê pela construção desconjuntada da frase.
Como naqueles dias eu estava metido numa tradução complicada, retomo o papo agora, porque pra mim é um pecado perder uma chance de falar sobre literatura. Além do mais, me parece que acontece o oposto do que o Charlles deduziu: devo minha chatice como leitor por ter lido e relido demais, não de menos, e por ter quebrado a cabeça desde cedo sobre o que chamam de carpintaria literária. Como um velho cavalo de circo, conheço todos os truques, de modo que fica difícil eu assistir a alguns espetáculos sem cochilar de babar na gravata, ou sem ter urticária ao ver autores toscos como um Jonathan Franzen e punheteiros como um Paul Auster serem levados a sério.
Fui influenciado por tantos escritores que posso me definir como uma salada ambulante. Citar todos ou a maioria seria tedioso, sem falar que na certa eu ia esquecer vários, porque alguns tiveram um papel intenso em certos meses e depois sumiram, quer dizer, sumiram das minhas releituras e até das prateleiras da minha biblioteca, mas algo deles ficou comigo. Digo ainda que há as influências em negativo: nunca faça como esse cara, seja ele um José de Alencar ou um Proust. Jamais esqueci o choque que levei ao ver o José de Alencar falando do mar como esmeralda líquida. Embora eu tivesse só treze anos, eu sabia que em matéria de estilo isso equivalia ao pinguim sobre a geladeira. Jamais esqueci também quando, pelos vinte anos, concluí que seria uma imensa vaidade eu tentar submeter meus hipotéticos leitores a algo como a lentidão da prosa do Proust. Quanto mais releio Stendhal, mais falta sinto de outros dez ou vinte autores com a mesma precisão, leveza e rapidez, sem esquecermos poder de alcance, e mais me convenço de que um Proust é suficiente.
Os escritores que me influenciaram são de todo tipo e calibre. Vão desde Homero (sou macaco de auditório da Odisseia, lida pela primeira vez na adolescência, quase toda no ônibus que me levava pra faculdade, aventura que eu não poderia repetir hoje) a Rex Stout, por exemplo. Stout é um autor de quinta? Sim, mas a fluência dele é de primeira, coisa que muito escritor de primeira não tem, detalhe que devia torná-lo de segunda. Aí está: coisas às vezes muito específicas me fazem ler e reler e estudar pra ver como o cara escreveu o que escreveu. Também há influências extraliterárias: o Mario Quintana (que tive a sorte de conhecer pessoalmente) sem pose de velhinho bonzinho, o deboche e o pessimismo do Ivan Lessa, o senso lúdico do Cortázar, a egolatria zero do cartunista Jaguar ou o comportamento do Dashiell Hammett durante o macarthismo – preferiu ir em cana e perder todo seu dinheiro a admitir que o governo tinha direito a lhe fazer perguntas. Adoro esse rompante. Provavelmente eu não teria a coragem do Hammett, provavelmente eu diria que não sabia de nada pra ser dispensado como fizeram tantos outros, como o grande John Huston, meu modelo de aventureiro, mas me conforta saber que uma pessoa aguentou o tirão. O fato de o Hammett ser um escritor menos importante que Hemingway, mas de mais fibra e caráter, apenas confirma a minha visão salada mista de mundo.
Numa contagem por alto, acho que uns vinte e poucos autores foram fundamentais pra mim e tenho falado deles por aí. O fato de eu me repetir com Borges e Cortázar, pelo menos em algumas colunas aqui, é simples: além de mais divertidos que a maioria, eles falaram muito sobre as astúcias e misérias de escrever, prato cheio pra um cara como eu, capaz de despachar cinquenta páginas a respeito dos bastidores de um conto de dez. Quanto aos outros, é interessante, quase não penso mais sobre eles. Relidos tantas vezes, fazem parte de mim, do meu olhar, dos meus gestos, da preferência por certos tons ou certos risos ou até mesmo certas implicâncias. Quer dizer, quando falo ou escrevo, não tenho um mapa das minhas referências pendurado na parede. A mistura de tantos autores tão diferentes entre si, ou com tão poucas semelhanças que nem poderiam ser amigos – quem convidaria Nabokov pra jantar com Robert A. Heinlein? –, mais a mistura com o que eu sou – digamos uns 30% nessa poção – e com o que o mundo fez de mim, é tão íntima que às vezes é difícil saber quem é quem, ou o quê é de quem, nem me interessa. Sou tupinambá. Eles também eram. Nós nos entendemos.
Quanto às minhas incuráveis preferências por autores de terceira, varia. A verdade é que não me impressiono com os grandes nomes, acho, inclusive, que a grandeza de muitos não passa de superstição de leitores maria-vai-com-as-outras – é incrível como muita gente se deslumbra com um adjetivo suntuoso ou uma pose de seriedade. Muitas vezes prezo certos livros ou autores mais pela voz, tom, atmosfera, sei lá, que pela técnica perfeita ou profundidade. Eu reconheço todas as fraquezas de um Philip K. Dick, por exemplo, mas a imaginação dele – o poder dela de agarrar pelo rabo monstros tão fugazes e recônditos – me atinge muito mais que muito clássico que anda por aí inflando as listas canônicas. O senhor Henry James, digamos. A leitura do todo perfeitinho James me deixa indiferente. Não é culpa dele ou minha. Nossos santos não se cruzam, pronto. Só me culpo por ter relido mais de uma vez alguns livros do James pra ter certeza do óbvio.
A maioria dos autores não me diz nada ou diz de um modo que me deixa frio ou me irrita. Nestas alturas do campeonato, não leio mais nada apenas pelo conteúdo, se é que li algum dia. O jornalismo já é peso suficiente. Estou até aqui de conteúdo. Eu quero bater papo com meus camaradas, ou tomar um cafezinho no boteco da esquina, nos entendendo em silêncio. Foda-se a sapiência de acadêmicos dos segundos cadernos.
Como dizia Stevenson, um escritor pode ter tudo, mas não tem nada se não tem encanto. Aí é que está o ponto, e o encanto varia de pessoa pra pessoa, sabe-se.

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