Tomei a decisão esta semana: entrei para o facebook. Até então, tinha alergia até ao nome, como aconteceu com o orkut, a que até tentei voltar, mas não tive paciência para ali ficar. Como de praxe, atendi a um convite de amigo, depois de recusar por anos seguidos. Sei lá o que me deu. E, como igualmente de praxe, enviei convite para minha lista, enchendo o saco da maioria, com certeza.
Para minha surpresa, muita gente que nunca tinha pensado em aderir, atendeu à chamada e hoje papeia comigo neste novo brinquedinho sério da internet. Para minha surpresa também, muita gente que eu achava que tinha pavor a “essas coisas” já tinha até perfil na rede. Caso do Flávio Dutra, que conseguiu me surpreender também pela foto em meio a japonesas simpáticas e pela recente criação de seu blog, que já deveria estar no ar (no ar???) há muito tempo.
Claro que, 90 por cento do tempo, se fala inutilidade em blogs, twitter e sites de relacionamento. No entanto, estas extensões da nossa vida intelectual e emotiva hoje são indispensáveis a quem quer de fato estar integrado ao mundo. Não adianta espernear e fazer tipo afirmando que está fora, não vai se expor por aí e outras alegações. A verdade é que, quem está fora, está mesmo é isolado. E vai ficar sem assunto não demora muito.
Se existe vida fora da internet? Sim. Mas não é mais completa como era sem ela.
Nem a fofoca tem graça se estiver rolando apenas de um ouvido a outro, em pequenos grupos, por telefone ou ao vivo. Desabafos só ganham amplitude quando os realizamos para o mundo inteiro ler, mesmo sabendo que chegamos ao máximo de 200 clicantes em nosso blog diariamente. Meu blog, Clínica da Palavra, que tem três anos, registra mais de 100 mil visitantes (desde que instalei o sitemeter, há dois anos, portanto deve ter mais), o que é uma gota no oceano. No entanto, mais de 100 mil almas andaram por ali, alguns poucos voltam, outros nunca mais.
Nada é, hoje, mais circular que fazer parte deste grupo: tudo sai, flui e retorna a nós imediatamente. Quem sabe está aí o moto contínuo?
Do meu pequeno escritório, cuja janela exibe um pé de mimos-de-Vênus com flores vermelha que balança ao vento e quase posso alcançar com a mão, ou de uma mesa de bar com meu note, posso brincar de dona do mundo, se quiser, xingar a mãe de alguém na Turquia ou agradar outra pessoa no Alaska. Sem falar outra língua que não seja a dos ícones. Melhor impossível.
Há tempos deixei de pensar que estar diante da tela era motivo de preocupação com uma possível doença isolacionista. Ao contrário: teclando reúno forças para enfrentar a vida nem sempre fácil da realidade e mergulho numa diversidade impossível de ser abarcada no não-virtual.
Graças a meus braços internáuticos divido o bom e o ruim, recebo abraços e xingamentos, seleciono quem merece continuar em meu círculo e fazer parte da outra vida, a de carne e osso. Posso inclusive conhecer histórias que me mostram que meus problemas são pífios, caso da família do menino Kaio Borges ou de Odele Souza e tantos outros que mobilizam a mim e a milhares de pessoas.
Eu, meu computador, minhas músicas online, meus amigos. Um privilégio, para quem apanhou numa velha Remington até aprender a datilografar, estar vivendo este momento. E ter a chance diária de se reciclar e tentar aprender um pouco mais com a vida. Como um barquinho pequeno que anda no mar da web, a gente vai indo e voltando, dia após dia, atrás do horizonte inatingível.
