Virei leitora do “Diário da pandemia”, no Instagram do colega jornalista Fábio Schaffner, assim como acompanhava alguns outros relatos de tantos aprendizados da quarentena. Lembro do dia que pensei: eu não senti vontade de fazer isso, por que será? E hoje vejo que a vida estava me guardando para escrever o relato de viver a experiência de contrair o vírus.
Ficam traumas físicos, sequelas, dores que chegam, se instalam e depois saem. A cabeça voa, as mãos se juntam, a esperança é companheira de isolamento. Um dia depois do outro. Um sintoma a mais. Certezas, dúvidas. A fraqueza do corpo é reflexo do quanto somos instantes. Medo, claro. Chega tipo furacão, na mesma intensidade que sentimos quando sai do corpo. Deixa diferentes cicatrizes invisíveis a olho nu. É preciso tempo. Dar tempo ao tempo. Vai passando devagarinho misturado com aquele turbilhão de sensações e sentimentos.
Eu ainda não tinha alguém próximo o bastante para viver a realidade de perto. Meu marido viveu dentro da panela de pressão desde o princípio, sabíamos dos riscos. O respeito e o cuidado que a maioria de nós – quem se preocupa, óbvio – tem para não trazê-lo para nossas vidas não é reconhecido pro bichinho que chega com o pé na porta e só perdoa as crianças, com a graça de Deus. Talvez o fato de ser diferente em cada pessoa é a maior incógnita de tantas que ele traz na bagagem. Já li desde estudos sobre tipo sanguíneo até produção ou não de anticorpos.
Mas precisamos também falar da vida pós-covid. De quando saímos dos noticiários direto para a vida real. Mexe com tudo. Abala geral. É preciso uma recuperação plena, de corpo, mente, alma. Ouvir uma história, ler um bom texto, assistir uma reportagem ou trabalhar com o fato… nada disso consegue tangibilizar a experiência de dizer: nós vivemos e vencemos o coronavírus. Saímos renovados e gratos de infinitas maneiras. A compreensão da família, dos amigos, dos colegas de trabalho e de todos que em algum momento viveram tudo isso, é o que faz a diferença. Quem sofreu com os sintomas do Covid e sentiu na pele que não é só uma gripezinha, se reconstrói com gratidão, empatia e muita fé.


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