oOo Alexandre, o nosso guia, avisou que o ônibus nos deixaria e nos pegaria sempre no mesmo lugar. Nesse lugar, “vocês vão ter moças que levarão vocês aos seus destinos”. Sempre foi assim, não? Pelo menos comigo, sempre houve alguma moça que me levou ao meu destino.
oOo Alguém perguntou ao escritor, roteirista e diretor Guillermo Arriaga: “Sua obra é baseada na teoria do caos?” Ele: “Não, não. Tenho déficit de atenção mesmo”.
oOo Arriaga acha que um roteiro cinematográfico, como uma peça de teatro, é literatura, mesmo que sejam completos apenas na tela e no palco. Acho simpática a ideia ou ao menos a vontade de valorizar o passe do roteirista. Afinal, sem um bom roteiro, não temos nada. Mas é complicado, não? Por exemplo, li o roteiro de “Fargo”, dos irmãos Cohen. Não tem um terço do impacto do filme. Apenas um leitor com um poder diabólico de imaginação poderia encenar na mente toda a tragicomédia. Ou um diretor. Ou talvez possamos dizer que potencialmente um roteiro pode ser literatura. Faltaria apenas surgir o Shakespeare do roteiro.
oOo Um dos problemas da Jornada de Literatura é que se comeu muito bem. Tudo culpa da chef Lisete Lütz Biazi. Além do mais, a Lisete tem a simpatia, o humor e a inteligência que me parecem tão necessários a uma boa mesa. Basta ver a apresentação que ela escreveu para “A Guardiã dos Sabores”, de Sônia Loguercio. Não se trata de mais um livro de receitas, mas de uma espécie de memória de nossos pratos. É preciso ser lido com a mesma reverência com que nos sentamos à mesa.
Prometi mandar à Lisete minha famosa receita de linguado ao molho de vinagre. É, aquela que comecei eliminando o vinagre. Estou curioso pra saber se ela vai incorporar o vinagre de novo.
oOo Um menino de oito anos me pediu um autógrafo. Aí, com o livro na mão, muito compenetrado — com aquela seriedade de um pai que fecha o boletim sem uma nota em vermelho do filho —, me disse: “Continue assim”.
oOo Tive muita sorte, porque entre dezenas de autores, caí numa atividade com a Índigo, escritora de uma fluência, concisão e humor extraordinários. Numa das conversas com as crianças, ela se saiu com esta: escreve e fica numa espécie de dormência em relação ao livro. Aí, se as crianças gostam, ela também começa a gostar.
oOo Confesso que pensei que o Encontro dos Escritores Gaúchos, coordenado pelo professor Luís Augusto Fischer, ia naufragar na vaidade e no academicismo, duas pragas bastante comuns nesse tipo de coisa. Me enganei redondamente. Ainda tive o prazer de conhecer gente nova e afiada como André Czarnobai (mais conhecido como Cardoso), Jorge Bucksdriker e Daniel Pellizari. A cultura pode ser curiosa, aventureira, engraçada, desafiante, lúdica. É incrível, pode ser uma coisa viva. Tenho de agradecer a experiência ao Fischer, que deu o tom de descontração e humor ao encontro.
oOo Cantinho da propaganda subliminar. Encontrei a grande Marilda Castanho. As ilustrações que ela fez para meus “Amigos da Onça” e “Contos de Morte Morrida” (Companhia das Letrinhas, 2006 e 2007) me parecem tão extraordinárias que não consigo ver os livros sem elas, ou com outras. Contei que tinha escrito um livro com histórias de diabos e que havia a dúvida: quem poderia ilustrar? A Marilda disse: “Qualquer um. Quem não gostaria de desenhar diabos? É sempre melhor desenhar gente feia, monstros, coisas tortas”. Aí lembrei de “A Pequena Sereia”. Ela, toda bonitinha, é uma figura anódina, nada a distingue de outras figuras bonitinhas. Mas a tenebrosa Bruxa do Mar é impressionante e, melhor ainda, única.
oOo Há gente preocupada com a Olimpíada, com nossa crônica falta de organização. Ora, contratem a Tânia Rösing. Ela é um exemplo de que o Brasil pode dar certo.

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