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Numa sinuca de bico

Descobri um modo certeiro de driblar a falta de tempo ou a falta de assunto: ler uma crônica da Carol Bensimon, a festejada autora …

Descobri um modo certeiro de driblar a falta de tempo ou a falta de assunto: ler uma crônica da Carol Bensimon, a festejada autora do romance Sinuca embaixo d’água. Ela sempre faz umas duas ou três observações que me rendem várias linhas de comentários, que faço com a facilidade de quem mija, como diria Marques Rebelo. Acho isso ótimo, porque escrever nunca é moleza.

Me espanta especialmente o ar de seriedade da Carol. Confesso que sou meio traumatizado com ares de seriedade, porque fui adolescente no tempo em que os milicos mandavam neste país e porque li o Oscar Wilde muito cedo. Como se sabe, Wilde dizia coisas profundas como se fossem frivolidades e frivolidades como se fossem coisas profundas. Era fogo, esse senhor. Ou senhora, se considerarmos a fofoca toda.

Vamos a um exemplo de raciocínio caroliano: “Uma coisa me intriga há muitos anos: por que escritores, à medida que envelhecem, leem menos romances e mais livros de não-ficção? Chefs passam a cozinhar só para os outros, enquanto em casa se alimentam de comida congelada? (…) Não me parece ser o caso”.

Escritores ou simplesmente bons leitores, depois de um certo tempo, descobrem que os grandes livros falam mais ou menos das mesmas coisas. Como dizia Faulkner, se Homero e Sófocles estivessem vivos, estaríamos desempregados. Infelizmente, nossa inteligência e imaginação não são inesgotáveis como gostamos de pensar. Pra complicar mais um pouco, os escritores e os bons leitores, depois de um certo tempo, descobrem todos os truques narrativos. Quer dizer, muita coisa que nos encantava aos quinze anos, aos cinquenta é só mais um coelho velho com as orelhas sebosas de tanto ser tirado da cartola pelo mágico. Mas como escritores e bons leitores são viciados, não conseguem parar de ler e migram para ensaios, história, antropologia. Não há mistério nisso. Além do mais, alguns de nós são curiosos.

Como a comparação com cozinheiros é falsa, em vez de irônica como a Carol pensa, não serve pra ressaltar o ridículo dos escritores. Veja, se um escritor já leu todas as aventuras, já conhece todas as formas de contá-la, por que vai querer passar por isso de novo? Por que vamos exigir dele as necessidades e desejos de alguém que se inicia? Um cozinheiro, mesmo depois de saber todos os segredos da culinária, mesmo depois de ter provado todas as receitas, continua precisando se alimentar. Se não comer, ele morre, sabia? Se um leitor não lê, no máximo vai ficar mal-humorado. Um bom bife não deixa de ser mais saboroso, ou de alimentar menos, se sabemos como foi feito. Um livro que repete coisas e formas que sei de cor e salteado só pode me encher o saco, não?

Mas a Carol Bensimon leva a tirada mais longe: o cozinheiro preferiria deixar de lado um bom prato pra se alimentar de comida congelada. Por que alguém com um gosto refinado vai preferir comer porcaria só porque conhece todos os segredos de todas as receitas? Isso tem lógica? Ou a Carol está insinuando que a ficção é como alta cozinha e ensaios, psicologia, história, antropologia são pirões congelados? Se é isso, está medindo o mundo e as pessoas pelas dimensões do próprio umbigo.

A Carol ainda se intriga com o fato de escritores continuarem escrevendo ficção apesar de não a lerem. Pra isso há provavelmente duas ou três respostas diferentes para cada autor. Pode-se escrever por costume, por não poder parar. Pode-se escrever por vaidade ou por dinheiro ou por prazer. Pode-se escrever na tentativa de vencer nossas limitações. É preciso muito peito e muita lucidez pra saber que não se tem mais nada pra dizer e chegou a hora de pendurar as chuteiras.

Os vivos e os mortos

A mãe de Amy Winehouse diz que ela reencarnou em forma de borboleta. Se for verdade, vai morrer logo de novo.

Vírus

Se o título do e-mail vem com dois pontos de interrogação, eu deleto. Não falo com gente que usa dois pontos de interrogação.

Autor

Ernani Ssó

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