Colunas

O adorável e terrível Philip K. Dick

Não preciso dos serviços da Rekal, empresa especializada no implante de falsas memórias, para me tirar do aperto. Não há aperto. Sei direitinho como …

Não preciso dos serviços da Rekal, empresa especializada no implante de falsas memórias, para me tirar do aperto. Não há aperto. Sei direitinho como conheci Philip K. Dick. Foi no começo dos anos 70. Foi num exemplar do Magazine de Ficção Científica e Fantasia de Isaac Asimov que a Globo editava. Foi com “Podemos Lembrá-lo por Atacado para Você”.

Como alguém me afanou a revista, apenas uns vinte anos depois pude reler o conto. Sem surpresa, descobri que lembrava da trama tintim por tintim e que acompanhava cada cena com o mesmo prazer, a mesma expectativa. Mais importante: a febre de Douglas Quail, o desejo de ir a Marte como às vezes a gente tem de ver o mar, feito aquele personagem de Dalton Trevisan, continuava me contaminando em poucas linhas. Não é moleza, não. Muitos outros contos, alguns clássicos, não encarnaram em mim com esse jeito de amor de novela. Pra completar: esse conto não é um caso isolado dentro da obra de Dick. Se nem tudo me pegou no plexo, o certo é que me tornei um leitor fiel, fiel mesmo, do tipo que lê tudo, até os livros ruins — alguns em traduções inomináveis —, coisa que nem nos meus dias mais patrióticos me aconteceu com Machado de Assis, por exemplo, de quem enfrentei Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia por puro dever profissional, entre bocejos do mais profundo tédio. Pensando bem, acho que além de Dick só Graham Greene e Georges Simenon me obrigam a esse tipo de fidelidade. Nem Cortázar, o meu grande caso literário, eu aguento às vezes, como no romance El Examen, em que perdi as esperanças antes de cinquenta páginas.

Não me custa nenhum pouco admitir que Dick não é um grande escritor. Comparado a um Dostoievski, Dick não existe. Mas se publicassem uma biografia de Dostoievski e outra de Dick, adivinha qual eu iria correndo ler? A pessoa Philip K. Dick me interessa mais do que a pessoa Fiódor M. Dostoievski. Compartilho alguns dos terrores que assombravam Dostoievski, mas não no mesmo grau, quer dizer, não arranco os cabelos, não bato com a cabeça nas paredes. Leio Dostoievski muitas vezes rindo ou chorando nos momentos errados. Leio Dostoievski com admiração, jamais com aquela ânsia dos animais que buscam sal. O sal que falta no meu corpo está nuns poucos escritores, entre eles Philip K. Dick.

É isso, eu não poderia integrar o grande elenco dostoievskiano, nem mesmo fazer uma ponta significativa. Sei que poderia ser um assassino, ser inclusive com facilidade se fosse posto num aperto, mas meus impulsos não batem com os de Raskolnikov ou com os de Demítri. Pelos retratos falados deles a polícia não me encontraria. Agora, com alguns retoques no nariz, no canto da boca e dos olhos, eu poderia posar de Rick Deckard: muitas vezes, sob a ameaça daquele mesmo cansaço e solidão, não vejo a diferença entre homens e andróides, nem sei se não sou andróide. Na busca ao último animal vivo, não me pergunto com o que sonham os homens, mas se os andróides sonham com ovelhas elétricas. Como Ella Runciter e outros, eu poderia estar preso no universo criogênico de Ubik, onde a vida é uma fantasia que se consome quase que no mesmo instante em que se forma, como a brasa de um cigarro com seu rastro de cinzas. Como Douglas Quail, sinto que a verdade pode ser grotesca e terrível, escondida por camadas e camadas de simulacros mais verossímeis que ela, nem sempre sendo necessário uma Rekal para fazer o serviço sujo. Como o herói drogado de A Scanner Darkly (O Homem Duplo, Rocco), embarco fácil naqueles raciocínios fervilhantes de lógica absurda e humor negro. Como o andróide de “A Formiga Elétrica” (em Máquinas que Pensam, L&PM), sou corroído pela suspeita de que a realidade pode variar infinitamente, basta uma mexidinha em nossos mecanismos de memória ou de percepção.

Gosto especialmente da estratégia meio contos de fadas dos melhores livros de Dick. Sabe como é, não se diz que a princesa estava triste, mas que a princesa chorou. Não se diz que o príncipe às vezes se sente e se comporta como um animal: um feitiço o transforma em fera. Enfim, não há discurso sobre nossos sentimentos, há imagens, imagens que os ilustram com uma nitidez de ferir os olhos. Isso é raro: um cochilo da gente e pronto, as palavras tomam conta e fazem a festa. As palavras não gostam de andar a serviço nem de trabalhar em silêncio. As palavras, se você dá um dedo, logo querem a mão, o braço…

Você nunca acordou sem amigos, sem família, mesmo entre amigos e familiares? Isso pode ser um momento desgraçado de solidão ou um medo bem conhecido neste continente sempre à sombra dos quartéis. Dick aliou os dois: Flow My Tears, the Policeman Said (Brasiliense: Identidade Perdida, Europa — América: Vazio Infinito). Jason Taverner é cantor, tem um programa na tevê, ibope de trinta milhões de espectadores. Aí, num passe de mágica, Dick o lança sem lenço e sem documentos num mundo igualzinho ao seu em tudo, menos num detalhe: lá ele não existe — e esse mundo é um estado policial. Exagerado, não? Mas eu me reconheço em Jason não apesar do exagero e sim por causa do exagero, como me reconheço no inseto que foi Gregor Samsa*, porque assim me foi revelado de modo concreto, digamos, sentimentos mais ariscos do que o proverbial gato escaldado, ou sentimentos recônditos e informes. Mas Dick não pára por aí — nem Kafka, of course. Seria banal se, depois do passe de mágica, não houvesse uma aventura que nos desse a chance de explorar esses sentimentos além de qualquer limite. Outra coisinha: essa aventura mexe comigo como os mitos e as lendas, quer dizer, age num território livre da patrulha da razão, onde ela só aparece, quando aparece, feito a polícia no local do crime: para contar os cadáveres e fazer hipóteses sobre o que aconteceu.

Por falar em sem limites, não torço o nariz para os livros de corte realista, até me divirto muito com alguns, mas balanço quando dou com um autor como Philip K. Dick. Saí de vários romances dele com a sensação de que não tem jeito, apenas a imaginação, a imaginação delirante, pode se aproximar do homem na sua — que palavra, meu Deus! — totalidade. Comparados com os de Dick, os homens do realismo socialista ou do naturalismo, para ficarmos em dois exemplos insanos, parecem macacos amestrados. Se, em boa parte não passamos disso mesmo, também somos outras coisas e outros bichos, às vezes com sete cabeças, algumas delas em adiantado estado de danação, outras de que pressentimos apenas as sombras e que só caem em armadilhas também de sombras.

John Brunner garante que Dick é invariavelmente o mais brilhante escritor de ficção científica. Como Brunner é colega de gênero, penso que não deve ser jogo de cena: é preciso coragem para admitir esse tipo de coisa em público, certo? Ainda mais nesse meio, em que há verdadeiras conspirações publicitárias para entronizar autores como Isaac Asimov, Robert A. Heinlein, Arthur C. Clarke, com Ray Bradbury correndo por fora. Se Brunner não está certo, anda ali, ali. Para o meu gosto, apenas Brian W. Aldiss, Ursula K. Le Guin e Stanislaw Lem são páreo (mas nem sempre) em imaginação e texto. É bom não esquecer esse negócio do texto porque a maioria dos autores do gênero não ultrapassou o nível da redação escolar. Quanto à imaginação, ainda lembro com alívio o primeiro romance de Dick que li: Eye in the Sky (Os Olhos do Céu, Galeria Panorama). Enfim alguém quebrava aquela monotonia de astronautas em perigo, de impérios galácticos e de alienígenas malvados vestidos de romanos. O futuro sonhado por Dick é sempre sombrio, o planeta em escombros ou governado por oligopólios, entre eles os de comunicação, espionagem e drogas. Como se vê, um futuro perigosamente semelhante ao presente que vivemos. Mas é bom o alerta: os livros de Dick são terríveis mas de leitura agradável, uma das paradas mais duras que um escritor pode enfrentar.

Alguém me disse que não era escritor porque achava que só valeria a pena se tivesse certeza de que seria um Dostoievski. Isso é meio como resolver dar um tiro na cabeça porque não se tem certeza de que se viverá cem anos. O sujeito escreve porque não consegue parar. Não tem nada a ver com ser um grande escritor. Mas se tivesse, imagina o crime: um Philip K. Dick não teria existido. Sem Philip K. Dick, não teríamos Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (Aleph), não teríamos Ubik (Aleph), não teríamos o Homem duplo, não teríamos O Caçador de Andróides (Francisco Alves), talvez os mais complexos e sensacionais romances que a ficção científica já deu. Aliás tão complexos e sensacionais que me parece injusto mantê-los relegados ao gueto de um gênero popular.

Um escritor menor? Pode ser. Mas quem dera que a maioria dos escritores menores fosse grande como Dick. Quem dera que muitos grandes fossem encantadores como Dick.

Mas, espera aí. Estou sendo injusto. Conheço dezenas de grandes escritores que alugariam a mãe, caso não conseguissem vendê-la, para escrever O Caçador de Andróides ou um dos outros que citei. Dick foi grande várias vezes. Pode ter encolhido algumas, mas qual o problema? A ciência está cheia de casos parecidos.

* Franz Kafka é outro. A Metamorfose é um exemplo esplêndido do uso disso que chamei de estratégia contos de fadas.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.