As questões políticas ocorridas nos últimos tempos vem provocando reações variadas em diversos setores, principalmente na imprensa. As divergências de interpretação de fatos são comuns e fazem parte do jornalismo, mas o comportamento de profissionais e de fontes tem causado alguns estremecimentos nas relações entre as partes. Um fato recente já mereceu avaliações de profissionais, estudantes e especialistas em comunicação: o affair entre o jornalista Antônio Carlos Macedo, da Rádio Gaúcha e a deputada federal Maria do Rosário (PT/RS), que culminou com uma recomendação do comandante do programa Chamada Geral para que a técnica tirasse a deputada do ar.
Tudo começou quando Macedo em entrevista questionou Maria do Rosário sobre o machismo do ex-presidente Lula em várias manifestações reproduzidas das entrevistas gravadas pela Polícia Federal. A deputada justificou sua defesa de Lula dizendo que “ele ocorreu em uma conversa privada” e que o termo “grelo duro” usado por Lula seria um termo nordestino para uma “comparação com Maria Bonita”.
Macedo, em resposta, afirmou que o termo não consta em um dicionário de termos nordestinos e que Maria do Rosário é uma “incoerência ambulante” por defender o machismo de bastidor quando convém – e lembrou que a deputada processou o deputado Jair Bolsonaro quando este teve uma atitude machista na Câmara Federal, citando a parlamentar. A entrevista ganhou contorno de peleia verbal, com acusações de um lado e de outro. Por fim, irritado, e contrariado, Macedo pediu para que a deputada fosse tirada do ar.
É justamente sobre esse comportamento do jornalista que gostaria de fazer uma breve consideração. Se ele tinha ou não razão, talvez não importa, mas creio que a boa ética jornalística sugere que o profissional tenha o máximo de controle para evitar confrontos ou vias de fato. Seria como comparar com aquela máxima comercial: “o cliente sempre tem razão”… em um primeiro momento, é claro.
Não se trata de condenar ou culpar o jornalista por seu comportamento… longe disso. Mas na minha opinião, não foi adequado. Talvez, por respeito ao seu público – que é diverso – e ao entrevistado, Macedo devesse ter deixado a entrevista correr, evitar qualquer ofensa e esperar para ver até que ponto sua entrevistada iria manter a serenidade. Ele próprio deveria ter sido mais sereno. E, caso fosse ofendido, tomasse as providências cabíveis. Tirar a entrevistada do ar denota um certo autoritarismo que não é compatível com a essência do jornalismo.
Eu vivi uma situação delicada como este nos tempos em que era editor de esportes de O SUL, e fiz uma reportagem sobre os altos salários no futebol brasileiro, de jogadores, treinadores e até dirigentes de algumas entidades. No dia seguinte, o presidente de uma entidade que já não existe mais, ligou para a redação, queria falar comigo. Atendi e, de pronto, ouvi isto: “Seu guri de merda! O que que tu pensa que está fazendo. Esta reportagem é uma merda, ou tu achas que eu ia trabalhar por essa merreca? Se o teu patrão de paga mal o problema é teu. Vai te informar melhor…”. Respondi com respeito que a minha fonte estava certa sobre o valor que ele recebia. Não retruquei e pedi licença e desliguei, comunicando a seguir o fato ao presidente da empresa.
Achei que tomei a medida correto. Poderia ter mandado ele reclamar para o papa ou enfiar o telefone onde quisesse. Talvez eu ficasse mais aliviado… talvez fosse demitido, se lá. Mas hoje penso que agi da forma correta ficando calado e deixando ele esbravejar. O dirigente está por aí espero que esteja feliz com o dinheiro que conseguiu, não digo que não foi merecido, mas não sei o que ele pensa quando deita a cabeça no travesseiro. E eu durmo tranquilo.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial