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O animal moral ou o chimpanzé de terno e gravata

Li o livro do Robert Wright, O animal moral, sobre psicologia evolutiva como se fosse um romance, ou mais, me divertindo mais do que …

            Li o livro do Robert Wright, O animal moral, sobre psicologia evolutiva como se fosse um romance, ou mais, me divertindo mais do que com a maioria dos romances que tenho lido ultimamente. Parte da diversão talvez seja por ver confirmadas, por um bando de cientistas, coisas que eu pensava e outras que suspeitava. Claro que houve muitas novidades, mas, como elas obedecem à mesma lógica, não me surpreenderam tanto. Outras coisas que me agradaram: a clareza exemplar do texto, a argumentação sem trapaças e o bom humor. Taí um livro que merece todos aqueles elogios estampados na contracapa.

            Vou citar um trechinho que li às gargalhadas. Wright diz que os biólogos evolucionistas confirmaram abundantemente que “em espécie após espécie, as fêmeas são recatadas e os machos não o são. Na verdade, os machos são tão obtusos em seu discernimento sexual que são capazes de buscar outros que não sejam as fêmeas. Entre alguns tipos de sapos, a corte homossexual por engano é tão comum que os machos usam um ‘toque de alarme’ quando se veem agarrados por outro macho, para informá-lo de que ambos estão perdendo tempo. Há registros que as cobras machos perdem algum tempo com fêmeas mortas antes de prosseguir na busca de uma parceira viva. E os perus cortejarão com avidez uma réplica empalhada de uma perua. De fato, a réplica da cabeça de uma perua exibida a uns 40 centímetros é em geral suficiente para desencadear a corte. O macho rodeia a cabeça, faz sua exibição ritual e, então (presumivelmente confiante de que seu desempenho a impressionou), ergue-se no ar e desce nas proximidades do traseiro inexistente da fêmea. Os machos mais viris revelarão tal interesse mesmo quando se usa uma cabeça de madeira, e alguns são capazes de sentir desejo por uma cabeça sem olhos nem bico”.

            Claro, nós, homens, não chegamos a esses níveis grotescos de estupidez. Claro que não.  Há muita diferença entre uma cabeça de perua e uma foto na revista, ou uma mulher de plástico, ou a pura e simples imaginação.

 

Darwin e Freud

            Freud se dizia darwinista e que pretendia mostrar as marcas que a evolução deixou na mente do homem. Segundo os psicólogos evolutivos, ele acertou uma porção de coisas, mas errou feio em outras. A famosa inveja do pênis, mal que atacaria todas as meninas, não tem lógica nenhuma dentro da evolução, por exemplo. Mas o que me agradou mais foi o complexo de Édipo. Os evolucionistas reconhecem que Freud detectou uma tensão entre pais e filhos. Mas essa tensão não existe por que o filho queira traçar a mãe. Novamente isso não faz sentido dentro da evolução, mesmo que haja alguns filhos mais taradinhos, com fantasias semelhantes às do Freud. O filho quer é a atenção da mãe e, de lambujem, que ela não lhe dê um irmãozinho. O filho também quer que o pai se afaste das demais mulheres, essas sim na mira dele. Wright acha que os freudianos devem rever seus conceitos com urgência, ou os neo-darwinistas vão atropelá-los.

 

A mãe natureza

            Vi muita gente chegada a um arroz integral exortando a todos nós a nos entregarmos à mãe natureza: além de bela, seria sábia. Mas a verdade é que nossa felicidade nunca entrou em seus planos: ela só quer que nossos genes sigam em frente, não interessa se o preço for sofrimento e morte. Seguir a natureza é a menina engravidar aos treze anos, por exemplo, jurando ainda por cima que foi por amor. Daí o perigo de procurar valores morais na natureza. Os capítulos finais do livro do Wright, que tratam de moral, são os mais difíceis, mas não devem ser pulados. Wright, como Thomas Huxley e muitos outros, acha que devemos nos conhecer sem ilusões, que é pra tentarmos deixar de ser apenas um chimpanzé de terno e gravata.

 

Atraso

            Li o livro do Wright com um atraso de mais de dez anos. Nesse meio tempo a ciência deve ter empilhado centenas de novos dados. Mas duvido que a argumentação central do Wright tenha sido afetada. Ao contrário, deve ter sido reforçada.

Autor

Ernani Ssó

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