A Chico Reis
Dois amigos meus passaram um verão inteiro
Depois é a solidão. Me confessaram, com uma satisfação demoníaca, que passaram metade de fevereiro jogando pauzinho com o garçom, num bar. Não havia mais ninguém na cidade, fora os três. Exagero? Juram pelo sol que nos bronzeia que havia tumbleweeds rolando pelas ruas e que o vento batia, insistente, uma porta, enquanto o fantasma de John Wayne cruzava o Bom Fim a cavalo.
O trabalho — bem, o trabalho nem é bom falar. Impossível se concentrar entre visões tenebrosas de mulheres seminuas e bares com mesas na calçada. À medida que o verão avançou, foram ficando drásticos, a ponto de concordarem com o Ducati, o fundador do Clube Nova Era, que uma vez propôs congelar as pessoas em dezembro e descongelar em março, para se evitar o suor e as moscas. Perto do carnaval, então, a coisa se tornou particularmente sombria: garantem que um leve bronzeado basta para qualquer mocreia virar beldade.
A ausência do mar não é nada, me disseram. O problema é a ausência opressiva do Guaíba. Quando o Guaíba era limpo, não se tomava banho nele, ou se tomava vestido praticamente de freira. Agora que é possível um bom banho, o rio parece a biografia de certos políticos. Sim, prometem limpar o Guaíba, mas se não estivermos todos mortos até lá, ainda resta um grave problema: como salgá-lo? Quanto às ondas, há unanimidade: sem ondas, evitam-se os surfistas. Não têm nada contra os surfistas, é bom lembrar, apenas contra os banhos com atropelamento.
Por aí começam as ideias de reformas. Porto Alegre é um charco cercado de morros. Talvez, derrubando uns dois morros, ficasse mais ventilado. Ou, já que estamos radicais, quem sabe se se botasse uma tampa sobre a cidade? Aí era só instalar um ar-condicionado.
Então — é fatal — todos nós lembramos daquela célebre frase daquela célebre repórter desta praça, numa célebre crônica sobre o verão: “O homem é um animal veranista por excelência”. Uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e o Nobel de Antropologia para essa aguda observadora do comportamento humano é pouco, muito pouco. Achamos que sua frase deve constar numa placa sob o busto de bronze da repórter pegando um jacaré numa onda de dois metros.
Mas isso tudo é passado, é de um tempo em que uma mulher não podia tomar banho de sol no Parque Marinha sem no outro dia comparecer na crônica policial. Hoje, com a falta de dinheiro, somos obrigados a ficar

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