Em outro monte de papéis velhos pra botar no lixo, encontro este conto, que não impressionou os amigos que são meus primeiros leitores e críticos. Devia ter ido fora, mas algo nele me amolece, talvez o modo enviesado como os adolescentes percebem e enfrentam a morte. Agora, todo ele parece um exercício do estilo do Cortázar e isso, há uns vinte e poucos anos, quando o escrevi, devia estar superado. Perdão, leitores, como dizia o velho Edélsio Tavares.
Anos depois o Manuel ouvia o despertador da cozinha, vinte, trinta anos depois ouvia como naquele sábado, um som de máquina mastigando uma carne que se torna metal e plástico no próprio instante em que é mastigada. O resto foi se apagando aos poucos, é mais uma sensação, uma sombra vertiginosa. Engraçado, o despertador deflagrou aquela noite mas o Manuel não tem idéia da hora, vagamente pensa que foi pela meia-noite. Ele e o Luís tinham bebido um pouco de vinho tinto vagabundo, nada de alarmante, nenhum deles com coragem pro primeiro porre. Estavam na cozinha, sozinhos e sem assunto, a casa toda pra eles, os pais do Manuel viajando. Podiam ter dado uma festinha, podiam ter arrumado umas meninas — não comentaram isso mas isso estava entre eles como o silêncio e a sensação de perda. No fundo os dois culpavam Passo das Almas, tudo o que não conseguiam fazer era culpa da cidade, eles haviam nascido ali e eram estranhos, tinham cada vez menos que ver com os meninos da idade deles e o que é pior, com as meninas, todas muito bonitas e idiotinhas, convidar quem pra uma festa?
Bem, o Luís disse como um suspiro e então o Manuel ouviu o tique-taque do relógio e se levantou num impulso, não vou dormir não, disse ofendido. Eles saíram pra rua dispostos a tudo mas vá se saber o que era esse tudo, eles queriam inventar qualquer coisa, intuíam que a salvação era inventar e que era preciso acontecer alguma coisa pra não voltarem pra casa se sentindo cachorros com o rabo entre as pernas.
Agora o Manuel não tem muita certeza do que fizeram, mas primeiro foram mijar nas escadas da prefeitura reservando um pouco de urina pras escadas da catedral. Se sentiram maravilhosamente rebeldes e depois? Depois resolveram passar por todos os becos, se acontece algo numa cidade é nos becos, o Manuel repetia sapiente, eles gostavam de becos, os becos branco e preto das histórias de crimes, aquelas sombras quase concretas de lua cheia. Andaram por dezenas de becos e de repente estavam contando os gatos, meio sem saber como resolveram fazer um inventário dos gatos de Passo das Almas. Foi assim que se aproximaram da casa da Fernanda, uma prima do Manuel, nem pode se dizer uma prima mas a prima, não que não houvesse outras, é que a Fernanda era a única pessoa em Passo das Almas com quem o Manuel não se sentia o esquisitão da cidade. A Fernanda era mais velha do que ele, uns dois ou três anos, ele se sentia um fedelho perto dela, um fedelho ignorante, ela tinha lido mais e era mais inteligente, puxa, inteligente e bonita, ela era a mulher que ele queria, sem notar media todas as outras por ela, mas naqueles dias ele queria a Fernanda, nenhuma mais, queria a Fernanda e fugir de Passo das Almas, fugir da vidinha pré-moldada que o esperava, o curso de Direito, a administração da fazenda do pai, queria fugir com ela pra — pra onde mesmo? Pros mares do sul, pra felicidade, pra si mesmo, quem sabe?
Claro que podiam ter entrado pelo portão, mas pelas leis daquela noite o certo era pular o muro do jardim: foram de mansinho como ladrões até a janela do quarto da Fernanda. O Manuel pretendia murmurar um poema contra a veneziana, só que na hora deu um branco e começou a se sentir estúpido. Aí, com um fervor desesperado como se se tratasse de uma fórmula de encantamento, começou a dizer coisas sem nexo, quase cinco minutos de absurdos, o Luís ao lado solene e aprovando tudo, talvez até tenha contribuído com algumas frases. Como saíram dali? Há um vazio na ação, a próxima lembrança os larga quase no outro lado da cidade, a uns dois ou três quilômetros da casa da Fernanda, na saída de um baile no salão paroquial da Igreja Nossa Senhora de Lourdes.
Se misturaram à multidão e imediatamente se sentiram mal, excluídos: quatro da manhã, as pessoas saíam mansinhas, esgotadas, nem eram pessoas, aquilo era um rebanho sendo conduzido de volta ao lar, ao domingo com missa e massa com galinha, de cabeça baixa à espera da segunda-feira e do trabalho honesto. Eles se afastaram, a urgência de fazer alguma coisa como a dor de um viciado estalando nas veias.
O Manuel não lembra se a idéia foi dele ou do Luís, é possível que simplesmente tenham continuado a andar e ao verem o cemitério entraram. O portão de ferro enferrujado rangeu como devia, eles deram os primeiros passos e sentiram o silêncio, a quietude, uma brisa fazendo tilintar uma flor metálica de uma coroa, o som da solidão essa brisa numa flor metálica e o vago cheiro de cera de vela do último enterro. Não havia mais lua mas a noite não estava escura, o brilho das estrelas geladas se refletia em mármores, em anjos prateados e túmulos brancos. Andaram de um lado pro outro sem se dizer nada, aos poucos a efervescência da noite ia se aquietando, vai ver teriam voltado pra casa tranqüilos se o Manuel não tivesse se escorado num túmulo: no topo, o anjo de cimento estava solto.
Vamos roubar, disse e de novo foi a mesma loucura de antes. Agora tinham pressa, precisavam escapar do cemitério, escapar do flagrante, é, era criminoso o que faziam, se sentiam maus e naquela hora era bom ser mau. O Manuel se escondeu atrás do muro, na entrada, enquanto o Luís foi averiguar se não havia ninguém. Daí se mandaram, o anjo enrolado numa jaqueta. Não podiam ir direto pra casa, claro que não, não é que houvesse mais movimento nas ruas centrais, àquela hora até os gatos tinham sumido, não podiam ir direto porque precisavam ir pelos becos, confundindo a trilha de tal forma que no outro dia nem eles seriam capazes de refazê-la. Mesmo complicando a volta como complicaram ainda acharam pouco.
Quase seis da manhã entraram em casa e botaram o anjo sobre a mesa, um gesto pleno, solene como a assinatura da paz na galáxia. Eles ficaram ali por um instante, quietos, saboreando o anjo sobre a mesa entre copos e o garrafão de vinho. Era um anjo feio de cimento, um anjo tosco, pintado de prateado, uma asa meio aberta e a outra apertada como se segurasse um termômetro, a cabeça levemente inclinada e os olhos vazios fixos em nada. Mas o anjo era a prova da bravura deles.
A satisfação, tique-taque, foi mastigada de modo abrupto: o relógio começou de novo sem mais nem menos. Com raiva, mas com gestos precisos e contidos, o Manuel pegou o relógio, abriu a geladeira e o enfiou no congelador. Muito bem, o Luís disse e enfim puderam dormir, achando que não tinham se saído tão mal na prova. Levantaram tarde e cada vez que olhavam o anjo, mais se desagradavam, a troco de que teriam pintado o miserável? Não se fazia uma coisa dessas, um anjo de cemitério devia ter limo, musgo, não aquele brilho de robô de ficção científica barata. Resolveram então tirar a tinta, mas não houve solvente que adiantasse. No desespero apelaram pra uma escova de aço e aí a tinta saía mas saíam também pedaços do anjo, o infeliz ficou todo arranhado. O melhor era desistir e eles não queriam desistir, então tocaram fogo no anjo com gasolina no fundo do quintal: foi bonito, o anjo prateado no meio das chamas e da fumaça negra, dava vontade de ir roubar outros anjos e tocar fogo e ficar passeando entre eles. Noves fora, nada: o anjo continuou prateado, que tinta, meu irmão! E agora, Manuel? Tive uma idéia, Luís: vamos pintar o anjo de verde! Pintaram o anjo de verde, um verde escuro, a pintura ficou meio zebrada, a tinta não pegava direito no prateado, enfim uma obra de arte pop e então, muito contentes, foram pra casa da Fernanda e deram o anjo pra ela, o presente mais bonito, a oferta da noite que tinham vivido, melhor que isso só mesmo o despertador estaqueado de frio às doze pras seis. A Fernanda botou o anjo atrás da casa, entre uns arbustos, com a solenidade que a situação exigia. Com o tempo o anjo ficou meio enterrado e meio torto pra direita, foi adquirindo um ar convincente de antiguidade, um jeitinho de quem há muitos anos está ali e não foi posto por ninguém mas sim petrificado durante o vôo, pobre bicho.

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