Loja de carne, no tempo do Cervantes, era um eufemismo pra bordel. Acho boa a expressão. Hoje, pode ser aplicada a muitos programas de televisão e revistas, não?
Dias perfeitos
Vivendo este ano muitos dias imperfeitos, me descubro mais paciente com as pessoas e mais impaciente com os livros. Era o contrário durante minha adolescência. Eu segurava petecas incríveis, em matéria de livros, como os do José de Alencar – apenas em Ubirajara tomei um fartão do velho bocó, mas li todo, sem pular nenhuma linha. Certo que às vezes a coisa é tão ruim que a gente nem acredita e precisa ir até o fim.
Hoje, em poucas páginas, manjo qual é a do autor. É triste, mas nem espero nada novo, espero apenas um trabalho bem feito. Agora, no fundo, o leitor viciado que eu sou quer algo novo e maravilhoso, algo que me arrebate, como Poe aos catorze anos, como Cortázar e García Márquez aos dezoito, como Greene, Svevo e outros mais tarde. Bem mais tarde se vamos falar do Svevo, último escritor a me deixar de boca aberta. Daí que, apesar da minha impaciência, estou sempre curioso e belisco por aí, na torcida de que a leitura dê aquele velho barato.
Quase não leio mais literatura policial, mas ao ver a Companhia das Letras lançar Dias perfeitos, de Raphael Montes, ao som de tambores e apitos, resolvi conferir. Não tinha expectativa nenhuma, porque tinha lido, no Blog da Companhia, umas duas crônicas de Montes, uma papagaiada das mais superficiais e sem graça. Como Montes ganhou um elogio do Scott Turow, autor que tem meu respeito (se você não leu Ofensas pessoais não sabe o que está perdendo), tomei coragem, não a ponto de comprar o livro, mas de pedir emprestado a um amigo, que mantenho no anonimato pra evitar possíveis retaliações.
Também vi no jornal Rascunho uma resenha elogiosa, ou pra lá de elogiosa. Também vi, na contracapa, Luiz Alfredo Garcia-Roza dizendo que o leitor era capturado pela fluência narrativa e qualidade literária de Montes. Também vi que Montes já vendeu os direitos pra cinema e pra tradução. Enfim, me parecia difícil tanta gente errando junto, pois a enxurrada de elogios me pareceu extensa demais pra ser outro joguinho com cartas marcadas. Santa ingenuidade.
Entre um resmungo e outro, fui até a página 35. Os diálogos me pareciam bobocas, as cenas muito enjambradas ou tolas mesmo, sabe como é, um adolescente tentando fazer graça e parecer esperto. Quanto à linguagem, sei não, me dá um arrepio quando algum personagem solta um muxoxo, por exemplo. Vamos deixar pros velhinhos da academia esse negócio de soltar muxoxo, por favor.
Eu sabia que não ia ler o livro, mas queria continuar pra ver que diabos o cara ia fazer. Não deu. Fui atropelado por umas frases do parágrafo final da página 31: “Numa esquina deserta, Clarice e a amiga trocavam carícias: beijos resfolegados, cabelos em desalinho, sapatos lançados à distância. Beijavam-se e riam, gozando o prazer das bocas sedentas. A amiga desceu a língua por Clarice, provando da pele alva e das sardas recônditas. Clarice escancarava a boca…”.
Não sei se vi antes tantas palavras inadequadas assim juntinhas. Beijos resfolegados? Podia ser o título de um livro, não? Um livro sobre dois caras que se beijam depois de correr uma maratona. Mas como o tal de Téo podia ver beijos resfolegados, meio no escuro, de longe?
Quando você diz que as fulanas trocavam carícias e bota dois pontos, o que pensamos? Que vem uma lista das ditas carícias, ou não? Mas cabelos em desalinho e sapatos jogados pro lado são carícias? E, por falar nisso, a troco de quê os sapatos são jogados longe? Estamos na rua, é só um arreto.
Gozando o prazer das bocas sedentas. Caraca, trata-se de um achado. Esta frase vai entrar pra lírica brasileira. Tomara que não seja estragada nas traduções.
A amiga então desce a língua por Clarice. Como não se menciona que tenham jogado longe as roupas junto com os sapatos, imagino que a língua não tenha descido tanto. Talvez uma lambida pelo queixo, pelo pescoço, quem sabe chegou até entre os seios. Mas como a amiga prova sardas recônditas, tenho minhas dúvidas. Porque, pra mim, estas sardas devem estar entre as nádegas. Não consigo imaginar nada mais recôndito.
Pra encerrar, a boca escancarada. Realmente, muito erótico, muito sugestivo. Nem um dentista teria sido tão preciso.
Que Raphael Montes seja meio sem noção, tudo bem. Mas que tenha o endosso de tanta gente me parece grave. O saco e a mente dos leitores merecem um mínimo de respeito.
Deu no UOL
“Morto aos 70, Johnny Winter era uma lenda albina das guitarras.” Jornalista concorre à lenda bronca da escrita.

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