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O caso Houaiss

Ai, ai, ai. O MPF quer tirar o Houaiss de circulação por, acredite se quiser, racismo contra os ciganos. Mesmo consultando o Houaiss e …

Ai, ai, ai. O MPF quer tirar o Houaiss de circulação por, acredite se quiser, racismo contra os ciganos. Mesmo consultando o Houaiss e o Caldas Aulete, os dois melhores dicionários em português que conheço, nunca tinha lido o verbete de cigano. Depois da notícia, fui conferir.

Lá está: adjetivo que apareceu escrito em português pela primeira vez em 1521, “relativo ao ou o próprio povo cigano”. Mais abaixo fico sabendo que por analogia a palavra significa “vendedor ambulante de quinquilharias, mascate”. Até aqui, tudo bem, senhora marquesa. Mas é a quinta acepção que levou o procurador Cléber Eustáquio Neves a pedir a cassação do dicionário, mais duzentos mil cobres de indenização por danos morais coletivos.

Com medo que seu Eustáquio queira me processar também, vou logo avisando que não tenho nada contra os ciganos, até fui colega de uma cigana na faculdade de jornalismo. Por sinal, ela leu minha mão e disse, entre outras coisas, que eu ia ganhar muito dinheiro. Até hoje não ganhei coisa nenhuma. Mas não penso processá-la. Quem mandou acreditar em quiromancia?

A quinta acepção vem sob o rótulo de “Uso pejorativo”. Em 1899, apareceu escrita pela primeira vez a palavra cigano com o sentido de “aquele que trapaceia; velhaco, burlador”. Isso, segundo o seu Eustáquio, é crime: “Ao se ler em um dicionário, por sinal extremamente bem conceituado, que a nomenclatura cigano significa aquele que trapaceia, velhaco, entre outras coisas do gênero, ainda que se deixe expresso que é uma linguagem pejorativa, ou que se trata de acepções carregadas de preconceito ou xenofobia, fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação”.

Um dicionário, seu Eustáquio, registra o sentido que o povo, através dos tempos, dá a uma determinada palavra. Deixar de registrar que em 1899 apareceu, pela primeira vez, o termo cigano com sentido pejorativo é uma falha. Não fica claro eme nenhuma o dito caráter discriminatório. Ficaria se o verbete dissesse algo assim: “Uso pejorativo carregado de razão”.

Acho que certo tipo de gente devia folhear ou acessar o Houaiss ou o Caldas e ler o significado da palavra lógica. Entre as várias acepções, devia prestar atenção à quarta, que vem sob o rótulo de “Derivação: por extensão de sentido”. Transcrevo pros preguiçosos: “maneira rigorosa de raciocinar”.

Mas seu Eustáquio prossegue: “Trata-se de um dicionário. Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada”. Não, não, meu nego (na acepção carinhosa), ninguém internaliza nada lendo dicionário. O cara se torna racista se é incapaz de raciocinar com rigor, se absorve sem questionamentos os preconceitos dos pais, vizinhos, professores, publicitários e demais formadores ou deformadores de opinião. Para mais detalhes, consultar um psicanalista, um sociólogo e um historiador.

Seu Eustáquio destacou que: “o direito à liberdade de expressão não pode albergar posturas preconceituosas e discriminatórias, sobretudo quando caracterizadas como infração penal”. Concordo. Só não vejo como o registro dos sentidos existentes de palavras, coisa que é a função dos dicionários, possa ser taxado de preconceituoso e discriminatório. Pelo discurso do seu Eustáquio, a gente é levada a pensar que os dicionaristas são uma gangue de ultradireitistas que está introduzindo verbetes escusos no seio da sociedade para corromper a juventude inocente. Isso me parece absurdo, na primeira acepção: “que se opõe à razão e ao bom senso; que é destituído de sentido, de racionalidade”.

Essa tentativa de esterilizar a linguagem é mostra do quê? Na melhor das hipóteses, de impotência. Diante de uma realidade brutal, em que pouco podemos intervir de modo efetivo, nos agarramos a detalhes. É como o cara que perde milhões por dia e economiza no uso de palitos.

Tudo isso me deu uma ideia. Confesso que foi ao ler duzentos mil reais de indenização por danos morais. Quando eu era menino, tive uma galinha nanica, ou melhor, uma galinha prejudicada verticalmente. Será que não posso processar todos os autores de dicionários e suas editoras? Afinal, a palavra galinha designa prostituta ou moças e rapazes que vivem trocando de parceiros. Minha galinha, juro, era a virtude em pessoa: foi galinha de um galo só até o dia em que foi pra panela. Acho uma afronta taxar a falecida de galinha.

Autor

Ernani Ssó

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