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O cavalo no galinheiro

O cavalo estava no galinheiro. Não punha ovos, naturalmente. As galinhas o olhavam com desconfiança. O galo, tendo ameaçado o seu reinado, fazia o …

O cavalo estava no galinheiro. Não punha ovos, naturalmente. As galinhas o olhavam com desconfiança. O galo, tendo ameaçado o seu reinado, fazia o cacarejo da revolta. Mas o cavalo seguia lá, impassível e certo de que aquele era o seu lugar. Porque dentre as galinhas, ele se sentia soberano. Porque dentre as galinhas e o galo, ele se sentia seguro de que a vida não ia lhe acertar grandes patadas, no máximo umas bicadas.

Assim é a covardia. Falei na semana passada sobre a covardia que as pessoas têm em enfrentar os desafios da vida e, portanto, apoiam-se em “ídolos”, que acabam por viver eles os desafios. Só que se vivem os desafios, podem sim enfrentar os fracassos. Mas também são eles que experimentam os louros da vitória, quando ocorre.

Uma vitória é algo muito relativo. A vitória de uma vida, a que as pessoas normalmente atribuem um significado de vitória, é alguém se constituir famoso e rico. Ponto. Porém, quais são os parâmetros para determinar uma vitória? O que constitui uma vitória?

Somos muito hábeis em julgar, condenar ou, no mínimo, ficar palpitando sobre a vida alheia. Porém, o que define uma vida são as suas condições. E as verdadeiras condições de uma vida, desconhecemos. Ao menos das pessoas que julgamos. Já fiz coisas das quais me arrependi, várias. E também fiz outras nas quais depois de um tempo, sequer me reconheço. Mas era eu quem estava fazendo, mais ninguém. E se fiz certas coisas, foi impulsionado pelas minhas instâncias psíquicas e pelas circunstâncias. Assim o é com todos. Temos o nosso núcleo central de pensamento e valores, mas somos diretamente impactados pelos fatos que vão nos acontecendo ao longo da vida, dos anos, dos meses, dos dias e das horas.

A covardia, sem querer estabelecer uma tese, mas fazer um pensamento, é um sentimento mais comum às pessoas do que se pensa. Muitos, incontáveis são os que se acovardam. Seja na área que for. Pois a covardia é zona de conforto, sim. Do meu ponto de vista, uma humilhante zona de conforto, mas o é. Somos seres falíveis e receosos. Diante de um desafio, há dois sentimentos comuns às pessoas: o medo e o estímulo. O medo de, face a este desafio, falharmos e sofrermos as consequências. O estímulo é adrenalina. Somos impelidos a enfrentar o desafio e superar a situação em questão. Isto pode nos mover. Ou não.

Por este receio, esta covardia, criam-se as figuras de “pais”. Conforme Sigmund Freud, um dos mais aterradores sentimentos para o ser humano é a ausência de um pai. Um pai orientador, provedor, amigo. Porque se aceitarmos que realmente não temos este pai (e mesmo para aqueles que como eu tiveram a oportunidade de ter um pai amoroso e presente), saberemos – e mais do que saber, assumiremos – que viver é um risco permanente. E por este medo, somos quase que impelidos a encontrarmos o pai. Seja na política, na religião, nos negócios, cada um tem a sua área de vulnerabilidade. O fato é que desta forma, cria-se um campo fértil para déspotas, aventureiros, falsos profetas se proliferarem. Porque eles oferecem algo que falta aos seres humanos. Conforto. Certezas. Queremos ter na vida a infalibilidade dos caubóis. Sua pontaria certeira.  Mas nesta vida, temos somente a certeza da morte. Mas sequer saberemos quando ela chegará para cada um de nós. E aí, tome pais postiços, profetas e grandes iluminados a fazerem previsões, afirmações e nos dizer como e quando devemos viver as nossas vidas. Só que esquecemos que o verdadeiro pai, depois que nos fazemos (realmente, não apenas em idade cronológica) adultos, somos nós mesmos. Nós é que somos os nossos mais severos carrascos ou os mais cuidadosos protetores. Nós é que realmente temos as nossas certezas ou as certezas das nossas dúvidas. Basta de pais emprestados. 

Autor

Flavio Paiva

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