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O desprezo pela literatura infantil

1. Há anos venho dizendo que escrever pra crianças é mais difícil que pra adultos, mas, mesmo argumentando bonitinho, ninguém me leva a sério, …

1. Há anos venho dizendo que escrever pra crianças é mais difícil que pra adultos, mas, mesmo argumentando bonitinho, ninguém me leva a sério, fora os que já tentaram um mano a mano com a literatura infantil. Eu não estou nem aí se me levam ou não a sério, mas tenho uma tendência a implicar com quem dá carteiraço em vez de argumentar. Então lá vou eu de novo.

2. O pior de todos os carteiraços: o olhar condescendente de escritores de quinta. O fato de escreverem pra adultos parece ser um argumento, em geral o único esgrimido, já que nem se considera a necessidade de discussão. Mas, se a lógica serve pra alguma coisa, é bastante óbvio que o que determina a qualidade de um autor não é o público, mas apenas o talento.

3. Sabe-se, a criança percebe a realidade — ou chame-se como quiser essa alucinação que nos rodeia — de modo diferente do adulto. Dois mais dois igual a uma literatura diferente pra criança e pra adulto. Dois vezes dois igual a exigência de talentos diferentes. Enfim, vamos parar de contar nos dedos.

4. Se o camarada é um escritor razoável, não precisa de um esforço titânico pra se colocar na pele de personagens adultos, porque conhece bem a linguagem e os problemas. A dificuldade, me parece, está em encarnar personagens muito burros ou mais inteligentes que ele. Essa dificuldade costuma ser driblada de modo singelo: evitam-se os personagens fora de alcance. Agora, um bom escritor infantil tem de encarnar personagens em várias idades, inteligentes ou não, de uma forma que a criança os reconheça, que os sinta reais. Mas fazer isso como, se a criança é terra incógnita? Se o escritor tentar sair pela tangente, vai escrever qualquer coisa, menos um livro pra criança.

5. Há quem pense que, pra escrever pra crianças, basta simplificar tudo ao nível preto e branco. Vejamos uma história como “A bela e a fera”. Onde estão o preto e o branco? Se as boas histórias infantis fossem tão preto e branco como dizem, a experiência de todos os adultos com elas seria a mesma, nem vamos falar de todas as crianças. Digo experiência porque os adultos, em geral, acham que compreender é poder escrever uma tese a respeito depois.

6. O fato de a maior parte do que passa por literatura infantil ser tatibitate só quer dizer que a maior parte do que passa por literatura infantil é tatibitate. Exatamente como o fato de a maior parte do que passa por literatura adulta ser lixo tóxico só quer dizer que a maior parte do que passa por literatura adulta é lixo tóxico. E o fato de a maior parte dos críticos ou resenhistas ou editores não saber onde tem a ponta do nariz quer dizer muito simplesmente que a maior parte dos críticos ou resenhistas ou editores não vai ao oftalmologista com a frequência devida.

7. O fato de grande parte da literatura infantil ser uma espécie de cartilha ou manual é prova de que os adultos olham as crianças lá de cima de sua experiência. Não, não acho que um adulto deva chutar pra escanteio sua experiência. O problema é como expressar essa experiência de um modo apropriado para as crianças.

8. Ao ler os contos de fadas, depois de adulto, me surpreendi com a beleza, o poder e o humor das fantasias. Não é muito claro o que a cabeleira da Rapunzel ou o sono da Branca de Neve numa caixa de vidro quer nos dizer. Mas algo em nós aceita essas imagens e nós não as esquecemos jamais. O que me faz pensar no que acontece entre meus dedos e o teclado. Sou incapaz de dizer a ordem das letras no teclado, mas meus dedos sabem, tanto que posso digitar de olhos fechados e em grande velocidade.

9. Em algum lugar Borges fala de escritores que pensam por raciocínios e de escritores que pensam por imagens. Na literatura infantil sempre se pensa por imagens.

10. Morte, medo, abandono, solidão, amor, amizade, traição — aí está uma listinha desgraçada de temas que embalam muitos livros adultos. Esses mesmos temas estão nas histórias infantis. Apenas o tratamento muda.

11. Além dessa coisa misteriosa, o talento, se um escritor não tem bem presente a própria infância, tentar escrever pra criança é como tentar explicar a um grego, sem saber mais que duas ou três palavras de grego, como se faz uma feijoada, por exemplo, ou se monta um reator atômico. Mas precisa também daquele distanciamento que bota certas coisas em foco. Se não tudo se resolveria com crianças escrevendo pra crianças.

12. Entre o desprezo pela literatura infantil e o desprezo pela criança não passa o fio de uma navalha.

Autor

Ernani Ssó

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