O historiador Luís Augusto Farinatti fez uma confissão que o comprometerá até a terceira geração, no mínimo: pelos vinte anos, trocou dezoito livros da dona Agatha Christie por um exemplar de O diabo a quatro. Como autor desse romance, fiquei estarrecido: pela primeira vez me dei conta do poder de corrupção que eu tinha sobre a juventude inculta. Menos mal que o romance foi um fracasso de vendas. Mesmo assim, após a constrangedora confissão, peguei uma autobiografia da dona Agatha, com uma foto na capa. Olhei bem nos olhos da velhinha, pronto pra dizer uma frase que lapidei numa madrugada insone: “Conheceu, papuda?”. Mas emudeci. Acho que minha avó tinha aquele mesmo olhar.
Farinatti confessou também que um amigo roubou o exemplar que lhe custou tão caro. Ouvi isso com uma satisfação diabólica. Nunca, nunca mesmo, o Faritnatti poderá comprovar a burrada que fez. O pobre vai viver na ilusão até o fim.
Bom, agora chegou a hora de uma confissão minha, mais penosa ainda. Eu tinha O diabo a quatro em alta conta, logo depois que o escrevi. Tanto que despachei uma continuação de 400 páginas. Mas a autocrítica e os credores me acharam. Daí, quase duas décadas depois, tomado por uma ânsia medonha, violei as páginas dos dois volumes como o doutor Frankenstein violou túmulos. Ainda como o ilustre doutor, separei as partes que me pareceram aproveitáveis de inúmeros cadáveres e as costurei, na calada da noite, montando uma nova criatura que se chama Como o diabo gosta e aguarda numa gaveta da minha biblioteca, rosnando baixinho, à espera da hora de assustar os aldeões e tantos novos escritores adolescentes de trinta anos que assolam o Brasil. Abaixo, uma amostra do bicho que deu: o começo e o final. Quanto ao meio, Farinatti, você vai ter de esperar a aposta de algum editor, coisa bastante improvável.
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Vi uma placa na beira da estrada anunciando três cidades, em Santa Catarina: Turvo, Ermo e Sombrio. Acidente geográfico é isso aí.
No princípio eram as trevas. Turvo, Ermo e Sombrio permaneceram.
Em Turvo, Ermo e Sombrio o arco-íris é em preto e branco.
As trigêmeas vocalistas de Turvo, Ermo e Sombrio nasceram em Turvo, Ermo e Sombrio. É que a mãe delas viajava muito.
As zebras, em Sombrio, não têm as listras brancas.
Os anjos da guarda em Sombrio têm um parafuso no pescoço.
Os mágicos, em Sombrio, tiram morcegos da cartola e a ajudante é serrada de verdade ao meio. Por isso tem espetáculos apenas três vezes por noite.
Você conhece as sete pragas de Turvo, Ermo e Sombrio? Nem queira, nem queira.
Na gadanha da Morte, dizem, está escrito: made in Sombrio.
Encontraram em Ermo as botas que o Diabo perdeu.
Dante não teve peito de escrever sobre os últimos círculos do Inferno. Você sabe do que estou falando.
Agora imagine uma biografia que terminasse assim: Desaparecido em Sombrio em circunstâncias não esclarecidas.
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Nada, Bruna, me lavará do corpo a tatuagem invisível da cidade, nem mesmo o fogo do inferno. Não é minha mão, apenas minha mão nos teus cabelos numa carícia que desce lenta pelas costas, se insinua amorosa e sabida na tua calcinha — siga as linhas que as ciganas leram, tome um mapa de Porto Alegre e me decifre, senão adeus, Porto Alegre nos devora.
Meus bairros: na Cidade Baixa, amei quem não devia. No Cristal, conheci um vampiro. Na Tristeza, neguinha, trabalhei. No Menino Deus, foi um susto: não sou imortal. No Rio Branco, traí. Em Nonoai, sonhei. No Moinhos de Ventos, às vezes fui Quixote e Sancho, Rocinante sempre. Em Petrópolis, berrei: cadê você, meu bem? Na Floresta, me perdi. Na Cavalhada — olhe, nem sei se estive na Cavalhada. Acho que aquelas sacanagens todas foram em Ipanema. Em Santa Teresa, enlouqueço. No Bom Fim, Bruna, melhor não falar — a via crucis do fígado e do coração.
Viu, meu amor, você me leva pra cama com a solidão das ruas, com o crime, a chuva, com o sol nas praças. Você me leva pra cama com livros, jornais, discos, uma luta de boxe, um jogo de futebol. Você me leva pra cama com amigos e inimigos, com gente que eu nem vi. Você me leva pra cama com mulheres de sonho e tantas outras — com a Amélia, a Joana, a Patrícia, com Fulana, com Beltrana, com Sicrana: é chato, Bruna, mas perdi a conta. Você me leva pra cama com a sobra das guerras, com os ódios, as ternuras, o veneno da esperança. Você me leva pra cama, você puxa o lençol, você me abraça, você me beija e aqui estou eu, Bruna, aqui estou eu quase como nasci. No calor da tua cama essa fantasmagoria toda enfim é isso, fantasmagoria, depois vira nada, o tempo paradinho da silva. Garanto, Bruna: se você olhar o relógio, não faltam cinco minutos pra eternidade.
Mas lentamente — muito lentamente, Bruna — outra vez Porto Alegre se arma no meu corpo como um quebra-cabeças. As crianças vivem perdendo as peças desses jogos, mas eu não, você sabe: os bares voltam ao endereço que consta na memória dos bêbados, a Praça Argentina se acomoda onde sempre esteve a Praça Argentina e ruas se cruzam formando esquinas conhecidas. Lentamente, Bruna, muito lentamente, até o último beco, até o último número em cima da última porta, tudo como antes, tudo como manda Deus Nosso Senhor e as leis da municipalidade. Pior, meu amor, nem praga de mãe.
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Acordei, incerta manhã, depois de um sono agitado, exatamente o mesmo de sempre. Me pareceu mau. Talvez seja pior do que amanhecer transformado numa barata leprosa com caspa na sobrancelha, porque isso tem a vantagem de ser uma história inesquecível, podemos até contar pros netos, se o inseticida nos der tempo. Mas pior do que acordar o mesmo é acordar o mesmo de pau duro. O que fazer? — como dizia Lênin. Gogol aconselharia uma punhetinha. Kant também. Não, Kant não. Pelo visto Kant jamais ficou de pau duro, se é que tinha pau.
Mija que passa. O banheiro fica ao lado, basta sair do quarto. Não, não, o banheiro fica tremendamente longe: fica no mundo. Tudo o que não está aí na cama fica no mundo. Mas ânimo, uma boa mijada, depois um mate bem amargo, aí você desce à banca da esquina e fica sabendo quem matou quem, quem roubou quem, quem traiu quem, o último guru, o melhor time, a roupa que você deve usar nesse inverno. Vamos, o exercício de ir até o mundo pode ser doloroso, mas deixe de frescura, ou aderiu ao festival do Bambi que assola esses tristes trópicos?
Confesso: cago pros mortos no jornal, pros melhores filmes, pros gurus com as últimas salvações. Ca-go. Acordei bogartiano hoje: acho que ninguém salva ninguém, ninguém educa ninguém e todos se perdem sozinhos. O meu problema é essa moleza no corpo. Parece que apanhei. Ando acordando mais quebrado do que quando me deito, mais ou menos como se tivesse virado barata. Devo fazer das minhas durante o sono.
Esta noite sonhei com aranhas e um liquidificador. Vire-se, Freud. Vire-se, Jung.
Vamos, Camilo, deixe de piadinha, levante. Vá mijar — só a ação redime. Os mortos esperam na banca. Seja educado: não se deve fazer ninguém esperar, muito menos os mortos. Sim, têm a eternidade pela frente, mas não se deve fazer os mortos esperarem: são nervosinhos, os mortos. Até hoje não fizeram nada, mas quem sabe? Seria bom não abusar da paciência dos mortos. Parecem indiferentes, só que não são indiferentes: os mortos estão exatamente naquele segundo antes do segundo em que se perde a cabeça, quando dois e dois começam a não dar quatro. O que vem depois ninguém sabe. Os mortos podem nos dar as costas e se afastarem pra sempre com o olhar parado de nostalgia e incompreensão, ou se atirarem a nós com suas unhas roxas e seus dentes afiados. É preciso ter cuidado com os mortos.
Vamos, Camilo, desça lá na rua, o mundo não fica assim tão longe. É preciso ao menos adular os mortos, mostrar que se sente muito, que se dependesse de você… É preciso dar as condolências pra família, entende?
Pensando bem, quantos mortos te pertencem? Tem ideia? Há, parece, sete ou dez ratos pra cada habitante. Baratas deve haver uma centena — uma centena de cada um dos mil e quinhentos tipos existentes! Mas quantos mortos há pra cada habitante? Só na Baixada Fluminense você tem uma porrada, sem falar em desaparecidos na Argentina, Uruguai, Chile e Turvo, Ermo e Sombrio. Quanta falta de interesse. Vai ver você tem um plantel de mortos — quantos mortos de fome, bala, tortura, drogas?
Será que me tocou algum suicida? Não tenho muita simpatia pelos suicidas. Nada pessoal, entendam, mas me parece uma saída fácil demais. Se tenho algum suicida entre meus mortos, proponho, a quem interessar possa, uma troca — como de figurinhas quando éramos garotos. Troco um suicida por amor, desses que primeiro manda bala na mulher e nos filhos, pelos mortos mais mortos, os da fome, os da guerra, que aqui tem macho!
Mas é duro, é muito duro. Você não queira saber o que é andar com a casa cheia de mortos, mortos pedindo, mortos nos agarrando a calça, mortos tomando os ataúdes uns dos outros, mortos se puxando os cabelos, se beliscando, se mordendo. Mãe, olhe este defunto inticando comigo! Pai, olhe esse cadáver estragando minha coroa de flores! Mãe, ele levantou minha mortalha pra ver as calcinhas!
Chega, Camilo, chega!
O mundo, através de um truque sujo — a campainha do porteiro-eletrônico —, veio me exigir ação. Quem será? Qual dos meus mortos me chama? Levantei praguejando, cambaleei até a sala e atendi. Era um vendedor.
Por que não era você, Bruna?
Abri a janela da sala pra parede suja do edifício ao lado. O dia, segundo o Almanaque Iza, era de São Gervásio, com lua nova. Lembrei de um rato que matei no campo há muito tempo: olhos irados, orelhas de couve-flor estragada, cinzento leproso — enfim, tinha um ar de peste pra existencialista nenhum botar defeito, como diria um tal Júlio. Sem exagero, o rato era mais feio do que o Sartre nos tempos do enjoo dele. O dia amanheceu com a cara do rato.
São Gervásio, são Gervásio, valei-me. Mesmo com você, mesmo com lua nova: cara de rato. Você não deve ser muito popular na galeria celeste.
Fui pra cozinha preparar o mate. O pacote de erva estava quase no fim e a cuia meio perdida na bagunça da pia: pratos, panelas, xícaras à espera de um ataque de limpeza. Todo o apartamento, por sinal, está à espera de um ataque de limpeza. Tudo anda esperando ultimamente. Deixo o relógio entregue às horas, as horas aos minutos, os minutos aos segundos, os segundos a Deus e ao Diabo — nessa terra da chuva, São Gervásio. Não posso trabalhar: estou grávido. Descobri naquele entardecer em que escrevi pra Bruna, no Farol de Santa Marta. Mesmo, estava na hora de um romance: cansei de ser escritor de cartas.
São Gervásio, São Gervásio. Qual era tua especialidade? Tirava coelhos da cartola? Fazia paralítico andar? Impotente foder?
Preciso ler com urgência a vida dos santos.
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Aline, querida: nada me lavará do corpo a tatuagem invisível da cidade, nem mesmo o ácido do tempo. Não é minha mão, apenas minha mão nos teus cabelos numa carícia que desce sorrateira pelas costas, se insinua amorosa por dentro da calcinha e brinca com teus segredos — siga as linhas que as ciganas não leram, tome um mapa de Porto Alegre e me decifre, ou Porto Alegre nos devora.
Meus bairros: na Cidade Baixa, fui frio e calculista, mas no Centro alucinei. No Menino Deus, foi aquele susto: não sou imortal. Na Tristeza, pensei duas vezes antes de não fazer nada. No Rio Branco, saquei mais rápido. Na Floresta, marquei a trilha com migalhas de pão. No Moinhos de Vento, nos amamos, meu bem, com mais braços que o gigante Briaréu. Em Petrópolis, disse cobras e lagartos. No Cristal, dobrei a aposta. Em Santa Teresa, vi a cidade: amor à primeira vista. No Bom Fim, Aline, melhor não falar — a via crucis do fígado e do coração.
Viu, meu amor, você me leva pra cama e no mesmo lance vão ruas e praças, carros e prédios, o sol e a lua sobre o Guaíba. Vão cartas, bares, livros e armas. Vão o sorriso da Mona Lisa, o olhar do Mr. Hyde, o relincho do Rocinante. Vão gritos de socorro, atentados ao pudor, falsos testemunhos. Vão os amigos, os inimigos, gente que eu nunca vi mais gorda. Vão os vivos e os mortos e a dificuldade crescente de distinguir entre vivos e mortos. Vão as fomes sem nome, os profetas furiosos, os loucos mansos. Vão as esperanças mais bobas, as raivas desperdiçadas, os milagres do afeto. Mas é pior, meu amor, é muito pior: vão todas as mulheres, todas elas, até as de mentirinha, até as feias, que Deus me perdoe. Você me leva pra cama, você puxa o lençol, você me abraça, você me beija e aqui estou eu, Aline, pronto pra ser Adão dando nome aos bois na filial do paraíso. Na tua cama, aos poucos, com jeitinho, vamos vencendo tanto lixo e outras camas, vamos separando as trevas da luz: enfim sós, Aline, enfim o nada, Aline, enfim o tempo paradinho da silva. Eu garanto: se você olhar o relógio agora, não faltam cinco minutos pra eternidade.
Mas devagarinho, bem devagarinho, Aline, outra vez Porto Alegre se arma no meu corpo como um quebra-cabeças. As crianças vivem perdendo as peças desses jogos, mas eu não, você sabe: os bares voltam ao endereço que consta na memória dos bêbados, a Praça da Alfândega se acomoda onde sempre esteve a Praça da Alfândega e ruas se cruzam formando esquinas conhecidas. Devagarinho, Aline, bem devagarinho, até o último beco, até o último número em cima da última porta, tudo como antes, tudo como manda Deus Nosso Senhor e as leis da municipalidade. Pior, meu amor, nem praga de madrinha.

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