Já falei alguma vez de Dona Eva, por aqui? Acho que não. Pois Dona Eva morou no apartamento colado ao de meus pais, na vila do IAPI, onde vivi por 25 anos e onde meus velhos ainda moram. Ela veio do interior gaúcho, da cidade de São Sepé. Chegou de saia de chita colorida, falando e rindo alto, unhas longas (e vermelhas como seu batom), um olho de gato, meio esverdeado, vivaz, atenta. Em décadas de capital, nunca conseguiu (minha mãe acha que era de propósito, pra fazer charme) pronunciar corretamente algumas palavras. Dizia: “pesquinho amadurado” em vez de pêssego maduro, “bassôra”, em vez de vassoura, “purga”, em vez de pulga. Não estava nem aí ao ser corrigida.
Dona Eva ficou, na minha memória por sua sagacidade mais do que por ter sido uma dedicada mãe de família que criou, além de Telmo e Telma, seus filhos, mais duas sobrinhas e, da última, quatro filhos. Era pobre, sim. Iletrata. Mas compensava todas as carências da vida com uma esperteza que escola alguma pode dar.
Se alguém, da vizinhança, igualmente pobre, comprava algum móvel que não estava a seu alcance, Dona Eva ia na ferragem, comprava tinta e em questão de horas tinha algo bem semelhante ao que enfeitava a casa próxima. Até muro ela fazia, misturava cimento, juntava tijolos, pregava cerca. Sem quebrar as imensas unhas.
Dona Eva se foi, faz alguns anos, depois de um cruel período de doenças. Ficará sempre na minha lembrança como um dos grandes tipos inesquecíveis da minha vida. Digna representante de um tipo de gente muito especial. Sua garra, sua imaginação, a força de vontade, a capacidade criativa e mais que isso, de fazer, de meter a mão na massa, são comuns a muita gente parida nas dificuldades do analfabetismo e da desigualdade. Por isso lembrei dela hoje, quando fiquei olhando, na telinha, Lula lendo um discurso cheio de firulas de linguagem, lutando para buscar a entonação certa num triste arremedo de orador, sem qualquer espontaneidade, repetindo conceitos e frases banais como “a esperança vence o medo”, aquele monte de blábláblá depassé.
Lá está ele, mais uma vez, gerando hoje mais piedade do que qualquer outro sentimento, teimando em tentar reverter mais uma besteira que protagonizou internacionalmente, por sua vaidade e pela ambição desmedida dos luláticos que o abastecem – não dá para esquecer a “missão de paz” no Oriente Médio que antecedeu a patacoada no Irã.
Eis, então, o metalúrgico que venceu na vida, o orgulho de dona Lindu, agora com a fisionomia caída, abatido, o barrigão empurrando o paletó inutilmente bem cortado, as olheiras fundas dos muitos cigarros que voltou a consumir, aquela voz cavernosa cheia de pigarro, patético! Mas ele insiste, botou o carro na banguela e não consegue parar de tentar vender um peixe que já apodreceu faz tempo, mas que nem ele nem os cumpanhêros querem botar no lixo: a imagem de diplomata que nunca foi, não é e nem será. Esperto, sim. Sagaz, criativo, capaz de superar dificuldades, tudo isso é próprio de Lula, como foi de Dona Eva, minha vizinha: se não dá para ter uma coisa autêntica, dá uma maquilada em algo que tem e larga lá, para o povo ver. Vai e faz. Não importa se ficar meio desbeiçado, tapeado, mal-feito, mas foi feito. Tem um mundo de gente que se contenta com um dinheirinho, um palavrão no meio do discurso, essas coisas “autênticas”, para aplaudir.
Sinceramente, tem me batido esta quase melancolia ao ver Lula como um desengonçado boneco de palha que está se esvaziando ao vento e se desespera para deixar alguém em seu lugar no imenso milharal que se tornou este país. Um espantalho, inflado por um bando que não quer largar a boquinha conquistada com falácias. Alguém que perdeu a noção de sua estatura, de seu papel, e que foi aceitando que lhe enfiassem mais e mais palha dentro dos ternos Armani e que, agora, não tem para onde voltar nem lugar para ocupar acima de onde veio.
Dona Eva me dá saudades. Soube viver e morrer dignamente.
