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O fim do rádio?

Por Carlos Guimarães

Entre uma revirada e outra de olho, mais pra lá que pra cá, prestes a me entregar aos braços de Morfeu, o Júnior Maicá, do Grupo Bairrista, tuitou nas primeiras horas do sábado uma reflexão dele sobre o tão falado futuro do rádio: “Tô aqui tomando um whiskynho e pensando se é hora ou não de debater, mas: pela primeira vez na história, eu acho que o rádio está ameaçado. Desta vez, a ameaça é real”.

Nas respostas, muitos colegas interagiram com o Maicá, que talvez seja o cara que melhor entendeu como se pensa, de forma empresarial, esse novo ambiente da comunicação no Rio Grande do Sul. Quando, lá atrás, ele monta o personagem do Bairrista, ele teve uma grande sacada. Não sei se ele considera isso como seu grande “lance”, mas creio que seu grande mérito foi ter compreendido o ambiente da Internet como um ecossistema multi, plural, capaz de abrigar diversos meios dentro de um meio maior. O texto não é mais linear, ele é hiperlinkado, ou seja, você pode ler e, ao mesmo tempo, conectar aquele trecho da leitura com outras coisas que acrescentam. O vídeo não é contínuo, ele pode ser pausado, programado para ser visto depois, acelerado, recuperado, etc. O consumo não é mais regido por uma programadora, que escolhe os horários e você se adapta para poder consumir o conteúdo; ele é on demand: você escolhe quando você vai ver.

E o rádio? A pergunta sobre o futuro do rádio está colocada em boa parte dos grupos de pesquisa brasileiros que procuram responder a esta questão. Participo de algumas discussões acadêmicas e vejo a preocupação dos pesquisadores em responder à mesma dúvida colocada pelo Maicá. É uma consideração válida, que requer um mapeamento mais profundo sobre o funcionamento das mídias no século 21. Estudos científicos, com pesquisas direcionadas para o assunto, são necessários e vêm acontecendo. Não há ainda um diagnóstico definitivo – e, sabemos, em comunicação, que nada é definitivo, tudo fica no plano da tendência. Mas, a priori, a resposta é negativa. Os próximos parágrafos são considerações pessoais, com algum tipo de base teórica e revisão histórica que me permite fazer tais apontamentos.

O rádio já foi dado como morto algumas vezes. Sempre pelo mesmo motivo: uma nova tecnologia, brilhante, impávida e colossal, vai atropelar os meios considerados obsoletos. O rádio sempre foi, neste sentido, considerado obsoleto. Chamo o velho Marshall McLuhan: os meios de comunicação são extensões dos nossos sentidos; quanto mais multissensorial, maior é a capacidade do meio penetrar na massa. O rádio é uni sensorial: você só utiliza a audição para captá-lo. A televisão é multissensorial: visão e audição. A Internet abriga todos os meios, conformando sua operação não apenas pela exploração multissensorial, mas por uma configuração que, além disso, é multimidiática. A Internet é uma espécie de hospedeira de linguagens já existentes (TV, rádio, texto), que ressignifica tais linguagens, formatando uma nova linguagem, que é a da Internet.

Roger Fidler, jornalista e pesquisador de origem tcheca, escreveu em 1997 um livro chamado “Midiamorfose”, em que pauta todos os estudos sobre novas tecnologias a partir de um princípio chave: uma vez criado, um meio de comunicação não morre. Ele se transforma. Quando a gente se comunica por WhatsApp, por exemplo, o fazemos através de uma evolução do telégrafo, do telefone, do fax e do e-mail. Da mesma forma que, quando assistimos a uma série em algum serviço de streaming, estamos assistindo televisão. Eu leio um jornal na tela de um smartphone. O rádio, com o princípio de que “uma mídia sofre transformações a partir de outra”, consagrado por Fidler, passa pelo mesmo processo.

Quando o cinema de Hollywood foi absorvido como indústria cultural falaram que o rádio iria morrer. Quando surgiu a televisão, disseram o mesmo; quando a TV passou a transmitir os eventos ao vivo – motivo de sucesso do rádio -, a mesma coisa foi dita. Nos anos 1970, com a explosão do rádio FM, houve até movimento de artistas – entre eles, Agnaldo Timóteo, Moacyr Franco e Antônio Marcos – para que o rádio FM fosse boicotado, que isso iria matar o rádio. Quando surge a Internet, ali pelos anos 1990, previram os podcasts – que existem há 20 anos – como uma revolução para matar o rádio. O rádio segue vivo; porém, obviamente, transformado. Hoje, não se sintoniza mais uma emissora na frequência de ondas curtas, porque não faz mais sentido. O AM é direcionado para o segmento popular e o FM também altera seu modo de produção.

A pedra no sapato poderia ser o podcast. É notável o crescimento desse tipo de programação. Entretanto, o rádio tem uma coisa que o podcast não tem – considerando, ainda, duas estruturas diferentes, embora alguns pesquisadores considerem que podcast é rádio; talvez, me enquadre nesse pensamento -: ele transmite o acontecimento ao vivo. Certo, mas é possível conferir o que está acontecendo pelas redes sociais. Aí entra a tal magia do rádio e seu xeque-mate em todas as outras mídias, utilizando, curiosamente, a sua uni sensorialidade: para ouvir rádio, você não precisa de atenção concentrada. É, ainda, o único meio em que você pode consumir ao dirigir, lavar a louça, brincar com o cachorro ou tomar banho. Pode se fazer isso com o podcast também, evidentemente. Mas, novo xeque-mate: e quando seu time joga? E quando acontece uma tragédia? E quando o presidente fala? E quando você quer saber como está o trânsito?

Contudo, é ingênuo afirmar que o rádio vai passar incólume por essa revolução. Também é superficial considerar que apenas a sua tradição o manterá. Os meios de comunicação não sobrevivem por tradição – alguém ainda usa telégrafo ou máquina de escrever? Ele passa por uma transformação que possivelmente traumatize um tanto aqui e acolá, justamente por ainda estarmos num ambiente a ser devidamente mapeado. Mas ele já fez isso antes. Antigamente, o rádio tinha como atrações principais as radionovelas, os grandes musicais, o radioteatro e as dramatizações. Com o tempo, esses produtos foram extintos por causa, principalmente, da televisão. Ele, portanto, se adaptou: passou por um processo de midiamorfose, tornou-se mais moderno e nunca perdeu sua relevância social. Cabe, logo, dizer que, igualmente, é precipitado premeditar sua morte quando, na verdade, o que se enxerga é uma espécie de deslumbramento pelo novo. As redes sociais seduzem; o tradicional é considerado ultrapassado.

Entender o progresso da comunicação como uma linha evolutiva em que uma coisa substitui a outra é um erro que cometemos toda vez que há, pela frente, uma nova tecnologia, capaz de revolucionar os hábitos, redesenhar panoramas e estabelecer novos paradigmas. Paradoxalmente, o podcast prova que o novo pode ser velho: quando você ouve o formato, ele começa como se fosse rádio, debate-se como se fosse rádio, entrevista-se como se fosse rádio e se fala como se fosse rádio. Não é rádio? Entende-se, também, que rádio não é sintonia, não é emissora, não é programação. Ele é maior que isto: ele é LINGUAGEM, utilizada de forma fidedigna no formato de podcast.

Mesmo que não tenha um programador, não seja sintonizado, não seja pelo famoso dial, é possível compreender que essas características já não definem mais o que é rádio. Tornam-se, apenas, modos de distribuição e consumo. Uma vez mudados, deixa de ser rádio? Linguagens não morrem, adaptam-se. Embora as redes sociais sejam um obstáculo, em que tudo parece ouro e reluz diante de nossas brilhosas retinas deslumbradas, a linguagem está presente nesse ambiente. McLuhan responde bem melhor que eu: se os meios de comunicação são extensões dos sentidos humanos, enquanto houver alguém que ouça, haverá alguém que fale. De um jeito diferente ou, melhor ainda, por um jeito diferente. Lavoisier já dizia que “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A transformação pode ser até chegar meio disfarçada e a gente se dê conta de que estas retumbantes invenções não passam, no fundo, de malfadadas cópias (em xerox, que já morreu) daquilo que outrora fora rotulado como obsoleto. Mas aí, eu teria que chamar Abelardo Barbosa, o Chacrinha, outro gênio: “nada se cria, tudo se copia”. Ninguém, até hoje, ousou contrariar o Velho Guerreiro.

Autor

Carlos Guimarães

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