Viviam em uma aldeia em que havia um grande caldeirão fervente. Dali, retiravam os seus mantras, expressos em velhas mantas ou outros objetos. O fogo não podia ser apagado jamais, sob pena de os aldeães questionarem, entreolhando-se: “Este caldeirão requentado é mesmo necessário?” E então dariam-se conta de que não apenas não era necessário como ali eram cozidas as mesmas cenouras, batatas, laranjas, mantas, meias e chapéus há muitas décadas. Volta e meia, os objetos eram retiradas dali por um dos integrantes do clã Aldeães no Poder. Ele olhava uma velha meia, esgarçada pelo tempo e fervura e dizia-lhes: “Aldeães! Eis aqui um novo mantra, uma indicação de caminho, de desejo!”. E então traduzia, em suas próprias palavras, o que queria que os aldeães entendessem. E apesar de velha, esgarçada e principalmente já conhecida meia (muitas outras vezes aquela mesma meia havia sido retirada do Grande Caldeirão Fervente), os aldeães seguiam seu mantra.
O problema é que o faziam não por entendimento nem por sabedoria. O faziam pela crença irracional de que os Aldeães no Poder eram os seus melhores intérpretes. E como os aldeães invejavam os Aldeães no Poder! Queriam usar suas roupas, ter sua vida enfim. Porém, os aldeães eram apenas, aos olhos dos Aldeães no Poder, uma massa de modelar infantil. Sabiam que o que dissessem, seria verdade. E se dissessem aos aldeães que a cor era o azul, assim seria. Se dissessem que deviam se vestir de roupas quentes no verão, idem. Se lhes dissessem que deveriam ter um determinado tipo físico, ainda que houvessem nascido com outro, os aldeães se violentariam (embora não pensassem que estavam se violentando, mas apenas ficando mais “belos”) até tornarem-se uma caricatura de si mesmos.
Havia os Pastores. Poucos lhe davam atenção e ouvidos. Eles pregavam próximo ao grande caldeirão. Pregavam, incansavelmente. Diziam aos aldeães que o que os Aldeães no Poder estavam retirando do caldeirão era uma meia velha e puída, mas muito poucos ouviam o que eles tinham a dizer. Alguns Pastores eram sugados para dentro do clã, tornando-se dignos de grandes benesses e passavam a ver e retirar meias velhas e puídas e dizer aos aldeães que ali estava um mantra, uma grande verdade.
Assim seguia a vida na grande aldeia. Há muitos e muitos anos.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial