Nunca estive no Haiti. Aliás, nunca sequer cogitei ir até lá. Pois desde dia 12 o Haiti, cujas imagens que sempre me chegaram ficam entre o exótico embalado pelo cinema norte-americano e o dramático das lutas internas, pois este mesmo país passou a fazer parte da minha vida metade do dia. Não porque eu quisesse, mas porque terminei invadida pelo terremoto e, neste processo, me senti responsável por fazer algo, mesmo que fosse apenas fuçar a internet e repassar informações pelo twitter.
Não estive e não estou sozinha nesta função. E vejo que, a cada dia que passa, este comprometimento aumenta. Estranho: houve o tsunami, o furacão Katrina, os acidentes aéreos sucessivos no Brasil, os horrores continuados e agravados nas favelas (maquiadas, pela hipocrisia das palavras, de “comunidades”) e, mais recentemente, as chuvas derrubando casas e levando morros, pontes e vidas perto de nós. Mas a tragédia haitiana se impôs.
Tão acachapante foi a sucessão de imagens e textos sobre o horror da destruição de uma terra historicamente massacrada por colonizadores e por disputa de poder interno, que a morte de Zilda Arns, num primeiro momento, fez apenas parte do contexto. Demorei um pouco para separar esta morte das outras.
Aos poucos, enquanto viajava pelo mundo, recolhendo pedaços de informações e trocando uptdates com twitteiros que nunca havia contatado, mundo afora, fui me dando conta do que representa a morte de uma mulher como Zilda. E principalmente me enfurecendo com a atitude de tanta gente safada, louca por 15 segundos (nem minutos…) de “fama”, que passou a banalizar a morte desta mulher de sotaque alemão carregado, sorriso constante e serenidade diante do que é adverso, inclusive a morte da filha caçula, Sílvia.
Não tem sentido, eu sei, me indignar com quem toma carona sem ao menos saber do que fala numa morte. Mas algum motivo deve existir para que tantos, mesmo os que jamais olharam pra um subnutrido com ao menos piedade, se tenham posto a citar a morte de Zilda Arns com uma intimidade assustadora. Sou contra endeusamentos, seja de quem for. Humanos são humanos, têm falhas, mitos são…mitos, e não pertencem a nossa realidade mesquinha de humanos. Então, cheguei a escrever que não vai faltar quem proponha, não demora, a beatificação da principal trabalhadora da Pastoral da Criança. E não faltará mesmo.
Mas quantos dos que falaram nela fazem alguma coisa pelo outro, mesmo que o outro seja um parente problemático, um colega de difícil convívio, um vizinho que inferniza a vida? Por isso a morte de um líder como Zilda pesa muito na nossa reeducação espiritual. Será que o trabalho que ela teve, seu exemplo, frutificarão sem sua presença? Oxalá, os aproveitadores, como Lula, que não visitou Angra nem os flagelados de qualquer estado, mas foi ao velório de Zilda, ao menos se sensibilizem verdadeiramente.
Debaixo do viaduto Obirici, na Avenida Assis Brasil, em Porto Alegre, uma mulher grávida e mais de quatro crianças (a população é flutuante) “vivem” na sujeira, pedindo, gritando, chorando, muitas vezes invadindo a vida dos moradores do entorno, assustando com sua agressividade. Quem está se ocupando destas criaturas? O Haiti também é aqui, não há dúvida. E aqui, exatamente debaixo deste viaduto, parece que o ensinamento de Zilda Arns não chegou.
