Acabei o romance de Leonardo Padura há uma semana, acho que devo comentá-lo, mas não sinto tesão nenhuma. Como não sou um resenhista profissional, preciso de entusiasmo – ou de irritação, quer dizer, de entusiasmo contra – pra escrever algo razoável. Achei Padura tão raso e os elogios que recebeu tão rotineiros em sua leviandade, que posso muito bem deixar pra lá. Deixando pra lá ainda não corro o risco de passar por um velho ranzinza, grande lucro nessas alturas. Mas aqui estou, na tentativa de entender exatamente por que me sinto assim diante de Leonardo Padura.
Como se sabe, o romance foi muito badalado e os qualificativos dos resenhistas estão na faixa de extraordinário, magnífico, excelente, o melhor isso, o melhor aquilo. É, meu amigo, as palavras custam barato, entre os semiletrados. Comprovo isso todo ano, várias vezes, faz décadas, daí que não levo a sério. Só que há um agravante no caso de Padura: ele mostra como o sonho comunista se transformou rapidinho num pesadelo monstruoso. Fiquei me perguntando até onde os elogios borbulhantes se deviam às qualidades literárias ou eram uma forma de festejar a ruína da utopia.
Vocês, não sei, mas eu, avisado cedo por uma tia sobre as contradições do chamado bípede implume, nunca levei muita fé em utopia nenhuma. Agora, não é por isso que me verão festejar a derrocada comunista, porque a derrocada não é só dos comunistas – destroços dela atingem a todos nós, de qualquer time ou de time nenhum. É simples: mais uma vez o bípede implume, cheio de boas intenções, botou o bloco na rua cantando a marchinha da igualdade e mais uma vez virou caso de polícia. Se alegrar de quê? Até o catolicismo, estribado no amor ao próximo, acabou levando o próximo à fogueira ao menor descuido, sem esquecer todo tipo de corrupção, desmando, covardia, ganância. Repito: comemorar o quê, hein? O mundo deteriorado, selvagem e miserável que habitamos é produto de outro sonho, o capitalista. Como de costume, os capitalistas estão prontos e afiados na hora de contar os mortos e absurdos da União Soviética, da China e de Cuba, mas faz de conta que seu terreiro é um paraíso – e quando esse terreiro é legalzinho, esquecem que foi construído sobre um cemitério clandestino povoado com suas vítimas. Me sinto surpreso ao pensar que haverá gente surpresa quando tudo explodir.
Acredito na honestidade de Leonardo Padura. Nota-se, claro, que ele escreveu com raiva. Compreende-se, como cubano ele engoliu por muito tempo a balela soviética. Mas, mesmo se tratando de uma desforra, não me parece que tenha exagerado. Deixou inclusive de dramatizar, com detalhes e personagens simpáticos pros leitores, muitos horrores exemplares. Grande parte de seu livro é apenas a relação jornalística dos crimes. É isso, não tenho nada contra o conteúdo d”O Homem que amava os cachorros. A história de Trotisky, Stalin, Ramón Mercader e do escritor fracassado que a conta é, sim, extraordinária. Pena que esteja muito acima do talento de Padura.
A estruturação do livro entre a vida de Trotisky, de Ramón Mercader e do escritor é simples e eficaz. Só chateia um pouco quando as partes de Mercader estão muito à frente no tempo das de Trotisky, porque aí, quando Trotisky entra em ação, há muita repetição. Mas não é intolerável. Depois, lidar com toda a massa de informação com que Padura lida não deve ser moleza.
Dessas três partes a que me parece mais convincente é a de Mercader. Talvez isso aconteça porque Padura está curioso com o personagem, quer entender como um rapaz cheio de ideais e basicamente um bom sujeito se transforma num assassino. Há então um tratamento literário, dramático, coisa que não acontece com Trotisky. Padura nem se esforça com Trotisky. Simplesmente dá um resumo jornalístico da situação dele, preferindo discutir política que examinar o homem. A própria mulher de Trotisky é quase que só um nome. Muitos dos parceiros de Trotisky que são citados são meros nomes. Não sabemos o que significam na vida e nos afetos de Trotisky, nem que papel têm com exatidão no jogo político. As partes do escritor, sei não. O escritor não parece bem uma pessoa e sim um mostruário das mazelas cubanas. O fim dele é muito melodramático, tipo novelão. Os encontros com o assassino também não me convencem. É duvidoso que o assassino resolvesse se confessar com o escritor. Só porque os dois gostam de cachorros? Quase tudo nessas partes me soa forçado. Como o escritor, um sujeito deprimido, sem interesse por nada, fica naquela curiosidade toda? Parece coisa de um desses filmes reles produzidos pelos americanos.
Além de tudo, temos o estilo de Padura: prolixo, cafona, soterrado de lugares-comuns (tanto de linguagem como narrativos). Suas criaturas afundam no pântano das paixões, a adaga gelada da ira fere profundamente a alma, o medo é cósmico. Ora, faça-me a favor. Pra completar, um estilo desses sofreu uma tradução das mais preguiçosas. Na ânsia por economia, a editora comprou a tradução portuguesa e deu uma copidescada pra brasileiro. Pelo resultado, dá pra pensar que a copidesque trabalha no fundo do quintal.
Os diálogos nem pretendem ser diálogos, mas apenas uma forma mais rápida e amena de passar informações. Principalmente no final, em Moscou, as conversas entre o mentor e o assassino são resumos feitos a ferro e fogo do que Padura não conseguiu encaixar antes em lugar nenhum. Não há preocupação com o ritmo e o clima das cenas. Tudo não passa de mero pretexto pra jornalismo.
Querem elogiar a coragem de Padura, a pesquisa dele, as boas intenções, o equilíbrio entre desabafo e lucidez, tudo bem. Mas dizer que é um escritor hábil, que tem grande densidade humana e intenso dinamismo narrativo é forte, muito forte. Sabe o que me deixa pensativo? Se erram feio assim num caso grosseiro como esse, o que podemos esperar de outros mais sutis, mais complexos?

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