
Naquela noite, quando entrei no Carnegie Deli, eu tinha apenas um único propósito: saborear o melhor sanduiche de pastrami de New York. Na chegada, a aparência do restaurante, que é frequentado por ricos e famosos, meio que decepciona. Sua decoração kitsch deve ter vivido melhores dias e noites, lembrando a atmosfera daqueles veneráveis restaurantes familiares do leste europeu. É um lugar onde não se usa formalidades – os clientes parecem se conhecer há anos e os garçons não anotam pedidos, simplesmente os anunciam aos gritos para a cozinha. Curioso, me ocupei em estudar o enorme cardápio. Havia muitos pratos da cozinha alemã, polonesa e austríaca, mas o forte eram os sanduíches de pastrami. A estrêla da lista era o “Six Foot Sandwich”, uma aula de geografia culinária: grossas fatias de pastrami, rosbife, linguiça húngara, pickles em conserva, azeitonas gregas, queijo holandês e molho tártaro. Demasiado para a discreta fome de um publicitário cansado. Escolhi algo mais adequado, o “Russian Beef”, um sanduíche para duas pessoas, de pastrami, peito de peru defumado, queijo suíço derretido e molho tártaro. Quando ouviu o pedido, o garçon franziu a testa e perguntou sem nenhum sinal de acanhamento:
“- O cavalheiro vai comer só isso?”.
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Pedido feito, me dediquei a examinar com calma o lugar que começava a encher, com pessoas aguardando na entrada, enquanto executivos ao estilo Madison Avenue e homens de macacão azul, se concentravam em devorar os sanduíches de pastrami e rosbife no pão de centeio, que chegavam sem cessar da cozinha.
Eu mal havia começado a enfrentar meu enorme sanduiche, com a ajuda de uma proporcional caneca de cerveja, quando percebi movimentação de um grande grupo na mesa ao lado, liderado por um sorridente homenzinho de suspensórios vermelhos. Ele usava um chapéu de fita e grandes óculos, que não escondiam um olhar travesso, que pareciam se divertir imensamente com o que acontecia ao redor. Enquanto eu me entretia com o “Russian Beef”, não pude evitar de entreouvir a conversa na mesa ao lado. Devia ser gente de cinema, pois discutiam locais de New York apropriados para locação, detalhes de filmagem e coisas do gênero. Quando me preparava para sair, me pareceu ter ouvido o homenzinho de suspensórios vermelhos mencionar os nomes de Jack Lemmon e Shirley MacLaine. No momento, não dei muita importância, pois em Manhattan, estas coisas acontecem a todo o momento.
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No dia seguinte, leio nos jornais a notícia que uma nova produção de Hollywood estava sendo rodada nas ruas da cidade. O título do filme era “Se Meu Apartamento Falasse”, com Jack Lemmon e Shirley MacLaine. O “New York Times” publicava ainda uma entrevista com Billy Wilder, o diretor das comédias “Quanto Mais Quente Melhor” e “O Pecado Mora ao Lado”.
A foto no jornal mostrava o homenzinho de suspensórios vermelhos e olhar divertido, que comia sanduiche de pastrami na noite passada no Carnegie Deli.
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“Por pouco, quase matei Adolf Hitler”, disse Billy Wilder, com os olhos brilhando. E contou que, em 30 de janeiro de 1933, no dia em que incendiaram o Reichstag, ele estava assistindo a um filme no UFA-Palast, em Berlim, quando viu Hitler sentado na frisa ao lado. E que poderia ter atirado nele. Quando perguntei porque não o havia feito, ele respondeu:
“Me faltaram duas coisas: coragem e um revólver”.
Hellmuth Karasek em “O Resto é Loucura”.
