Anne, a terceira mulher de Dick, disse numa entrevista que ele teria ficado satisfeito com o reconhecimento que tem agora. Em vida, não foi levado a sério, a não ser por alguns poucos leitores, que, segundo Stanislaw Len, admiravam-no pelos motivos errados. Anne diz uma coisa de uma tristeza enorme: no começo dos anos 80, pouco antes de morrer, Dick enfim ganhou uma bolada de dinheiro e, sem saber o que fazer, foi comer um sanduíche de presunto.
Lirismo
Minha singela ajuda a poetas e escritores na hora das descrições:
• um sol de desgraçar carteiro.
• a noite era escura como… como… como uma noite escura.
• a lua surgiu no horizonte como um queijo encantado. Pena que inodoro.
• ela leu, no brilho do seu olhar, os vinte e oito volumes das memórias de Casanova.
Ratos
Os ratos sempre tiveram má fama, menos no cinema. O pessoal do cinema nunca teve uma colheita devorada, nunca teve um parente morto de peste ou leptospirose, nem comeu um pastelzinho que devia ser de alcatra ou coxão mole? Pelo jeito, não. Os ratos no cinema são bonitinhos, limpinhos — piolhos e pulgas, mais patas sujas do esgoto, não seriam fotogênicos. E, na sua luta contra os gatos, os ratos angariam uma simpatia que guerrilheiro nenhum nunca teve, por mais sórdida que seja a ditadura a que se oponha. Por quê?
Milhares e milhares de pessoas têm gatos, milhares e milhares de pessoas amam seus gatos mais que a seus próximos, mas no cinema torcem pelo rato. Mais: essas mesmas pessoas compram veneno pra rato, compram ratoeiras, ficam histéricas na presença de um camundongo.
Quando Werner Herzog filmou a cena dos ratos que acompanham o Nosferatu e trazem a peste a Londres, muita gente ficou indignada: coitadinhos dos ratos. Tudo bem, eu também defendo os direitos dos animais, mas, vamos combinar, o pior filme do Herzog é melhor que a vida de centenas de ratos. Eu, tão incoerente pra tanta coisa, nisso sou de uma coerência à prova de balas: eu torço pelo gato. Na vida e no cinema, eu sempre torço pelo gato.
Como um palmito
Na tradução do Quixote, feita pelo Sérgio Molina, para a Editora 34, se lê no final do quinto capítulo do segundo volume: “Mandai vós dinheiro — disse Teresa —, que eu o vestirei como um palmito”. Como ele é um tradutor experiente, como essa tradução ficou em terceiro luar no Jabuti de melhor tradução de 2004, cabe pensar que ele sabe que se trata de uma expressão idiomática. Mas não entendo por que ele a traduziu literalmente, já que não faz o menor sentido em português, nem se pode deduzir nada, porque vivemos num tempo em que se conhece palmito apenas em lata. Me parece que seria muito mais fiel a Cervantes dizer que a Teresa ia vestir o filho como um almofadinha, ou que o ia endomingar.
Às vezes é preciso traduzir literalmente, às vezes é preciso mexer no texto. Saber quando fazer uma coisa ou outra é um dos pontos que define um bom tradutor. Nesse caso do palmito parece ter havido um apagão, apenas. Mas o diabo é que há muitas outras situações semelhantes, porque Sérgio Molina decidiu ficar colado ao original. Compreendo a decisão dele, mas não compartilho dela.
Blanco noturno
Li o multipremiado romance do multivalorizado Ricardo Piglia. Achei uma multibosta. Voltarei ao assunto, multidetalhadamente, um dia desses.

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