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O ir e vir da respiração (ou “Sublimação” ou “Oi, Sumido”)

Escrever este texto dói. Cada palavra digitada causa a mesma dor de uma unha arrancada. Repetidamente. Um ritual sem sentido em que doer e avançar são a mesma coisa. Desculpa o silêncio. Eu precisava sumir. Virar vapor de dentro para fora. Um bloco de gelo que, sob a violência da luz do sol, entra em sublimação. No final de 2025, eu não conseguia produzir praticamente nada. Falei nesta coluna sobre parar de escrever como “a Vida” para escrever sobre quem era o Luan. Mergulhei nessa jornada com pouco ar nos pulmões. Só o suficiente para mim. Agora, coloco a cabeça para fora. Surgiu uma mistura de quem eu era e de quem estou.

Transformação vem do latim transformare: trans (através, além, para o outro lado) + formare (dar forma, moldar). Ou seja, transformar, lá na origem, não era apenas mudar. Era atravessar uma forma para alcançar outra. Transformação é um ato que exige ação.

Por isso, a transformação assusta tanto. Atravessar as formas sucessivas da gente, boas e vergonhosas, e aceitá-las é amedrontador. Você se abandona ao aceitar as vozes fantasmagóricas que emergem da sua infância. Esconde-se sob o cobertor, repetindo o que aquele jovem fazia há 25 anos com medo do bullying escolar.

Não fiquei embaixo do cobertor porque a vida, seja lá o significado que essa palavra tenha para você, grita por nossa presença. Enfrentei os desafios de um novo trabalho. Meu livro, Colapsos Coloridos, lançado neste ano, foi escolhido como leitura obrigatória em um dos colégios de uma grande rede de ensino. Existe, ainda, a expectativa de trabalhar com profissionais incríveis e jovens estudantes que me desperta orgulho, apesar de eu falar pouco sobre isso. É verdade que preciso ser lembrado constantemente pelos meus amados mais próximos do quanto isso merece ser celebrado.

Consegui ajustar a dose da medicação para lidar com meu TDAH, assim como a dos outros medicamentos que tomo para lidar com comportamentos causados (ou não) por um diagnóstico tardio. Às vezes, reflito se foi sorte ou azar ter sido diagnosticado justamente quando o assunto virou moda. Mas viver pensando no que poderia ter sido não ajuda a lidar com o que é. Comecei a falar mais sobre o assunto durante a terapia e decidi que meu medo de exposição é menor do que a esperança de reconfigurar a visão estereotipada que o TDAH recebe.

O que faltava para a esperança virar ação chegou numa mensagem da minha orientadora, Regina Zilberman, e faço questão de citar o nome pelo orgulho de ser guiado por uma lenda. Faço mestrado em Letras e estou no último semestre. Além de realinharmos prazos, ela fez um breve comentário sobre a leitura de Colapsos Coloridos. Disse: “Agora eu te entendo melhor.”

Algo efervesceu dentro de mim.

Precisamos que a condição seja tratada de forma mais realista para outros entenderem melhor. O TDAH não é um simples “déficit”. A palavra não é nem adequada para definir o transtorno. Na verdade, não sofremos de déficit de atenção; é o contrário. Temos mais atenção do que conseguimos lidar, de modo que o desafio constante é controlá-la. É como ter um “carro de corrida com freios de bicicleta”.

Alcançar ou não esse propósito não vai mudar quem eu sou. Mas minha esperança é que isso desloque o TDAH para um lugar de maior acolhimento. De início, o gesto mais honesto é parar de pedir desculpa por não funcionar como a maioria e, com alguma ternura, aprender a respeitar o ir e vir da minha respiração, da minha vida e de quem eu sou.

Com amor, Luan

Autor

Luan Pires

Luan Nascimento Pires é jornalista e pós-graduado em Comunicação Digital. Tem especialização em diversidade e inclusão, escrita criativa e antropologia digital, bem como em estratégia, estudos geracionais e comportamentos do consumidor. Trabalha com planejamento estratégico e pesquisa em Publicidade e Endomarketing, atuando com marcas como Unimed, Sicredi, Corsan, Coca-Cola, Auxiliadora Predial, Deezer, Feira do Livro, Museu do Festival de Cinema em Gramado, entre outras. Articulista e responsável pelo espaço de diversidade e inclusão na Coletiva.net, com projetos de grupos inclusivos em agências e ações afirmativas no mercado de Comunicação. E-mail para contato: [email protected]
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