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O medo das chuvas

Houve um tempo, nem tão distante assim, em que eu gostava muito da chuva. Dos sentimentos que ela proporcionava. Um pouco de melancolia. Um pouco de meditação. Um pouco de enclausuramento doméstico. Do cenário que ela desenhava. De sentar perto da janela e ver a água caindo e irrigando o solo, molhando as árvores que resistem ao desmatamento e limpando as calçadas. De perceber o barulho dos pingos batendo nas persianas. De dormir ouvindo este som. De imaginar a benção da chuva sobre as lavouras.

Mas hoje eu tenho um imenso medo da chuva. Não alimento mais sentimentos e cenários positivos, românticos ou paisagísticos de qualquer anúncio de tempestade. Fico nervosa só com as informações da meteorologia avisando de previsões de chuvas. E a qualquer possibilidade de uma chuva mais demorada já me abasteço de suprimentos para sobreviver ao período mais prolongado das águas caindo.

E esse medo nasceu no final de abril de 2024, quando o Rio Grande do Sul viveu a tragédia das enchentes. Exatamente há dois anos eu carrego esse sentimento de medo das chuvas. Exatamente há dois anos as chuvas provocaram o maior desastre climático do Estado.  

E desde então, sempre que chove eu temo que aquele pesadelo possa se repetir. Aquelas cenas horríveis de desespero de quem foi atingido pelos dias de chuvas. Desnorteados. Desamparados. Angustiados. Que novas famílias fiquem desalojadas. Que mais pessoas tenham que sair de suas residências e perder seus bens. Que as águas invadam casas, escolas, hospitais e comércio. Que as chuvas prejudiquem o fornecimento de água e eletricidade. Um caos total.

Isso porque ainda faltam obras de prevenção para evitar novas enchentes. Pouco ou nada foi feito pela gestão municipal e estadual para reduzir os danos de dias intensos de chuvas. A insegurança das famílias que perderam tudo ainda persiste e muitas ainda aguardam soluções prometidas em 2024. Seguem ainda muitas reivindicações das pessoas afetadas pelas enchentes não atendidas.

Para piorar meu sentimento de pavor, a meteorologia projeta a perspectiva de uma nova ocorrência do El Niño no segundo semestre, o que pode significar um novo período de chuvas prolongadas e enchentes no Estado e em Porto Alegre. Segundo informou o prefeito Sebastião Melo em recente entrevista, a capital está mais segura para novas chuvas, mas é importante lembrar que as obras estruturais do sistema de proteção ainda não estão concluídas.

Será que vamos reviver aqueles meses de abril e maio de 2024? Será que vamos vivenciar novas enchentes? Será que outras famílias serão penalizadas? Será que o território gaúcho voltará a ficar imerso sob as águas?  Será que Porto Alegre sofrerá como na enchente de 2024? Que eu esteja apenas mais pessimista. Quem sabe, um dia, eu possa perder novamente o medo das chuvas.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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