A encantadora Isabela, filha mais velha do Adaílson, zelador aqui do prédio, e de sua esposa, Lu, fez dois anos há pouco. É miúda, tem olhos de jaboticaba e a carapinha sempre presa no alto da cabeça com passadores coloridos em volta. Ainda usa fraldas e também chupeta, que tira da boca, rapidamente, a fim de enviar beijos pra gente. Um charme só.
Pois Bela, hoje, me deu uma lição fantástica de comunicação quando cheguei da rua. Ela estava no banco do hall do edifício, com a mãe e a irmã, Isadora. Assim que abri o portão da garagem, ela correu até o limite de segurança (que respeita sempre) e começou a conversar comigo. Parei o carro, e ela seguiu adiante, correndo pela passagem para pedestres, sempre falando, empurrando seu carrinho de bonecas cor de rosa, vazio. E eu sem entender aquela língua isabelística, fiquei esperando seu retorno para perguntar o que ela queria.
Segundos depois, eis a pequena de volta, agora com o carrinho ocupado pela boneca. E ainda falando seu dialeto próprio. E eu perguntando e jogando palpites para ver se acertava “o assunto”.
Como ela viu que eu não estava entendendo seu palavreado, resolveu empregar outro método: usou aquela minúscula mão direita para me apontar o caminho do Box, insistindo que eu seguisse em frente, pois ela já havia tirado “a filha” do caminho e do perigo. Ora, como é que eu não tinha entendido!
Grande comunicadora, essa Isabela!
Com dois aninhos, ela consegue ser mais claramente honesta e inquestionável que muito profissional da comunicação, como Boris Casoy, que debochou dos garis e foi denunciado por um microfone acidentalmente aberto, e sua dileta amiga Bárbara Gancia, que o defende alegando que tudo não passa de um mau momento de flagrante de muito azar.
Bela é mais capaz de respeitar o interlocutor que um político que chora lágrimas de crocodilo como José Roberto Arruda, governador de Brasília. Da mesma forma, não faz a gente de bobo como a TV Brasil e uma turminha petista da TVE que tenta inverter o jogo podre do governo Lula de aparelhar a emissora que, até agora, não era foco de interesse para parcerias – só em ano eleitoral. E esta coisinha de poucos palmos de altura consegue ser mais ética, em sua sinceridade, que muitos dos usuários da internet, em especial do twitter, com tem tenho convivido amiúde nos últimos meses.
Me chateia, me irrita, me deixa indignada, muito mais que ver a falta de caráter sentir que os malandros mal-intencionados gostam de, acima de tudo, que a gente assine recibo de idiota, como em todos os casos acima citados. Que tentem nos enganar, ok, é direito de todos, em especial dos safados. Mas querer que concordemos com as pulhas que plantam, isso é digno de um paredão de fuzilamento moral.
Estou furiosa. Porém, mais que furiosa, assustada. Eu e Regina Duarte, como naquela época em que ela falou no medo que sentia de Lula ser eleito. Sim. Eu tenho medo de Dilma. Mas também tenho medo dos políticos canalhas que botam capa de cordeiro. Eu tenho medo dos jornalistas da estirpe de um Casoy que pode ser competente mas se revelou um patético preconceituoso (logo ele, que deveria estar ao lado das minorias!) e ainda acha quem o defenda. Tenho medo dos Arruda da vida e sua corte de caras de pau que não hesitam de puxar o coro do “ele rouba mas faz” como ouvi recentemente.
Tenho medo das redes sociais em que já não se sabem as intenções de uma frase banal, em especial tenho medo agora do twitter, onde o nível tem baixado assustadoramente não só em termos de palavrões e bagaceirices, mas em agressões que expõem o outro com uma raiva de homicida.
Que pena começar o ano assim, amedrontada, com nojo, desesperançada do ser humano em geral. Só quem me dá esperança são os puros de coração, como a Isabela e seu poder de comunicação que não dá lugar para mentiras e más interpretações.
