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Eu era criança e ia ao cinema Baltimore aqui em Porto Alegre. Era um cinema de rua, como quase todos, até porque shoppings sequer …

Eu era criança e ia ao cinema Baltimore aqui em Porto Alegre. Era um cinema de rua, como quase todos, até porque shoppings sequer existiam. Estamos falando do começo da década de 70. Ia assistir aos clássicos da Disney (A Dama e o Vagabundo, Se Meu Fusca Falasse, entre outros), levado pela minha irmã. Antes de iniciar a matinê (era assim que chamava-se à época), havia o programete do Canal 100. Ele destacava presidentes de farda e as maravilhas que o Brasil estava construindo. Estávamos em pleno regime militar.

Neste programete, havia espaço para o futebol. Os olhos de crianças que gostavam do esporte então, brilhavam. Isto porque filmagem era de ângulos não convencionais (no nível do campo, quase de dentro do campo, entre outros), além da fantástica slow motion (ou câmera lenta), que permitia que quase se visse os olhos dos jogadores piscando. Era um espetáculo que valia quase tanto quanto o filme e as balas Azedinhas.

Isto porque, na época, as transmissões esportivas eram muito raras. A TV a cores estava iniciando. TV a cabo nem se ouvia falar. Então, as raras transmissões esportivas que eram feitas serviam de motivo para reunir a família. E eram feitas com meia dúzia de câmeras, o que permitia normalmente tomadas mais distantes, planos mais gerais.

Cresci achando que a beleza que eu via nos jogos de futebol da tela do cinema era em função da tecnologia, da proximidade, câmera lenta. Mas esta é uma parte da verdade, não toda. De fato, a evolução tecnológica e em especial de imagens ao longo dos últimos anos tem sido extraordinária, com ângulos, tomadas e possibilidades totalmente inimagináveis em meu tempo de guri. Temos um espetáculo maravilhoso nos Jogos Olímpicos, nas Copas do Mundo e mesmo nas transmissões esportivas dos Campeonatos Brasileiros e Regionais. Ver o atleta de perto, sua expressão de esforço, de comemoração, poder ver diversas vezes um lance polêmico, isto tudo catapultou o esporte a um patamar de verdadeiro Olimpo nas transmissões.

Mas havia uma coisa que mexia comigo nas cadeiras do Baltimore, quando eu via as transmissões do Canal 100, além da beleza das tomadas de imagem: era a plástica do próprio futebol. Paradoxalmente, se o futebol em suas transmissões ganhou em tecnologia, sua prática perdeu em plasticidade. Os jogos eram, sim, muito mais bonitos de se ver. A idéia aqui não é fazer a apologia ao saudosismo. Mas não há como negar os fatos. Meus olhos ficavam encantados com as jogadas que, ao contário do ritmo alucinante dos nossos jogadores hoje, tinham cadência, gingado e dribles. Hoje, o drible virou quase uma ofensa, um pecado. Tenho saudades do gostinho das balas Azedinhas, do Mentex, e do futebol jogado com técnica apurada e beleza.

Autor

Flavio Paiva

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