Quem é torcedor de futebol, em especial quem acompanha os jogos nos estádios ou (de uns anos para cá) em bares que tem o pay per view, na companhia de amigos, sabe o que é o pertencer.
O sentimento coletivo (aquela catarse que acontece nos estádios) é justificado pelo sentimento de pertencer. Todos os torcedores pertencem a um mesmo grupo, a uma mesma tribo. Isto gera um sentimento de poder e significado, o que acaba justificando as pessoas estarem agrupadas em torno de causas ao longo de suas vidas.
No caso do futebol, há ainda um ingrediente adicional. Muito já foi falado que o futebol é uma versão moderna da batalha entre gladiadores, em que duas equipes ficam lutando até a morte (o apito final). Serve para que os cidadãos modernos extravasem suas emoções, gritando, pulando e, em alguns casos, chorando nas arquibancadas.
Claro que há o excesso disto. Os torcedores que brigam, se agridem ou agridem aos adversários. Há casos de espancamentos, trocas de tiros, facadas, pedradas e, infelizmente, mortes. Porque a extrapolação deste sentimento de poder que uma tribo (torcida) empresta é o sentimento de poder ilimitado para seres humanos sem estrutura psíquica adequadas. Sem valores de vida em sociedade, com estruturas emocionais muito fracas. Assim, quando são postos em contato com um poder ilimitado (que os grupos fornecem, pois há ainda a garantia do anonimato na multidão), fazem valer todas as suas iniciativas primitivas e deturpadas.
Porém, voltando ao sentimento de pertencimento que uma torcida de futebol traz, ele é muito forte. Este sentimento, na verdade, é combustível para o ser humano, não apenas nos estádio. Precisamos pertencer para nos sentirmos inseridos e parte do mundo. O sentimento de ETerização (a pessoa sente-se como se fosse um ET neste mundo) é muito forte, quando ocorre. Cria uma idéia de que aquela pessoa está ou no lugar ou na hora errada. Ou ambos. Dá uma sensação de isolamento e vazio. Por isto, as pessoas reúnem-se em torno de idéias, causas e, no caso, clubes de futebol.
Mas é necessário, em especial no caso dos brasileiros, que este sentimento de pertencimento a uma torcida seja acompanhado de um sentimento ainda maior: o de pertencer a uma sociedade, a uma comunidade e que o respeito ao próximo valem muito mais do que as cores da camiseta.

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