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O primado da opinião

O acesso às fontes das informações está cada vez mais restrito, seja na política, na Justiça, na gestão pública, ou mesmo no esporte. As redações ficam reféns das assessorias de imprensa que, na maioria dos casos, cumprem bem seu papel de meio campo, mas não deixam de ser um anteparo às fontes demandadas. Assim, causa estranheza quando uma repórter como Malu Gaspar aparece com informações quentíssimas e exclusivas sobre o caso do Banco Master. Certamente dispensou intermediários para levantar aos fatos. 

 A apuração rigorosa, a investigação aprofundada virou exceção no jornalismo praticado no Brasil.  Atuei nos dois lados do balcão e, por isso, acredito que falo com conhecimento de causa.  Esse distanciamento, pela falta de relação direta com as fontes, gerou dois efeitos danosos, que realimentam o processo de marasmo do jornalismo: de um lado, a acomodação dos profissionais da reportagem, presos ao celular e  cada vez mais afastados de onde a vida acontece; de outro, os veículos apelando para os comentaristas/colunistas para suprir as lacunas do noticiário. O primado da opinião sobre a informação.

E tem ainda a disseminação do uso das redes sociais pelas fontes, ou seja, cada postagem vale como uma nota oficial, que será reproduzida pela mídia, integral ou parcialmente, sem necessidade de ouvir o emissor, ou que este se submeta às perguntas incômodas de uma entrevista coletiva. Essa estratégia já mereceria um tratado acadêmico, 

A propósito, reproduzo o que escreveu o jornalista Tutty Vasquez, autor de textos bem humorados, mas não é bem o caso quando tratou do que chama de “comentarismo”: 

“Ou o Brasil muda de assunto ou a Globonews muda sua programação! Ninguém aguenta mais ouvir o Camaroti, o Valdo, o Merval, a Natuza, o Gabeira, a Dualib, o Demétrio, o Trigueiro, a Ana Flor, o Colombo, a Sadi, a Flavinha, aquele jovem ‘filósofo’ que tem uma verruga no meio da testa, aquele outro economista que fala fino e, last but not least, o Guedinho, todos dizendo as mesmas coisas todos os dias, o dia todo. O pior é que esse troço vicia! O jornalismo está sob ataque do comentarismo!”

Data vênia, assino embaixo.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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