Desde Benjamin Franklin, mandar alguém para o raio que o parta não tem o mesmo terrível prestígio dos tempos em que Zeus andava por aí, prendendo e arrebentando. Em todo caso o medo, ou a lembrança de milênios de medo, se agita no fundo do nosso sangue, quando o flash de um relâmpago corta o céu e nos deixa em suspenso, à espera do canhonaço do trovão. Eu, por exemplo, cresci numa casa em que não proliferavam superstições imbecis — havia na parede um diploma de primário e uma réstia de alho pendurados no mesmo prego —, mas, como não tinha pára-raios, na hora da raiva eu preferia mandar o sujeito para os quintos dos infernos, ou que fosse ter com a própria mãe, senhora de passado histórico.
Lembro que durante os temporais tomavam-se medidas drásticas, como esconder tesouras, queimar ramos bentos e cobrir os espelhos. O rádio era desligado porque podia estragar, sem falarmos na preocupação de que o raio, andando pelos fios, pegasse o locutor na outra ponta, fazendo o pobre engolir a língua. Uma tia, depois disso tudo, ainda se trancava no guarda-roupa, mas jamais virou chacota na família. O guarda-roupa era grande o suficiente para todos nós.
Se mandarem você para o raio que o parta, um conselho: seja rebelde, não vá. Consulte sempre a meteorologia, faça uma social com Santa Bárbara e procure um lugar onde um raio já tenha caído antes, porque os raios não costumam cair duas vezes no mesmo lugar por motivos estatísticos. Se bem que depois desses políticos que ganharam dezenas de vezes na loteria…
Agora, o raio pode vir até você. Mas fique tranqüilo: raio não parte ninguém. Só mata. Segundo os desenhos animados, você vira torresmo e se botarem uma lâmpada na sua boca, ela acende. Segundo o doutor Frankenstein, ao contrário, você ressuscita, mas para saber se isso funciona você precisa morrer antes tomando uma série de medidas bastante complicadas. Depois é bom lembrar que esse doutor foi cassado pelo conselho de medicina devido ao mau hábito de querer criar a vida violando túmulos quando podia fazer o mesmo, nuns cinco minutos, violando a noiva.
Se o raio cair ao seu lado, há dois riscos: o coração pifar ou a lavanderia não aceitar sua cueca. O negócio do raio é o mesmo da minhoca e dos grileiros: terra. O problema é que haja algum condutor de eletricidade entre você e o local em que o raio caiu. Dependendo da voltagem, você ainda tem uma chance: ser enterrado de pé. Me garantiram que é batatolina. Só não sei a profundidade que o buraco deve ter, nem como exigir de algum ministério a construção de buracos estratégicos, já que a especialidade do governo não é buraco, é rombo.
Mas se você é um sujeito bem mandado, saiba que não é nada fácil ir para o raio que o parta. A concorrência com os pára-raios é mais violenta do que filme de Tom e Jerry. Mesmo antes de Franklin era preciso driblar o acaso. Pense na cena: aquele senhor bem vestido empinando papagaio na chuva… Talvez seja a solenidade que a envolve o que a torna irresistivelmente cômica. Ao mesmo tempo, sinto a efervescência do orgulho: ali está alguém em busca do que pensa ser a verdade, sem medo dos céus e de dar vexame na frente dos vizinhos. São homens assim, em momentos assim, que justificam o fato de não andarmos mais de quatro. Sem eles acho que era melhor que a espécie toda fosse para o raio que a parta.

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