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O silêncio de Llosa e Márquez

Vargas Llosa disse que “García Márquez e eu temos um pacto tácito que é: nós não falamos de nós mesmos para dar trabalho aos …

Vargas Llosa disse que “García Márquez e eu temos um pacto tácito que é: nós não falamos de nós mesmos para dar trabalho aos biógrafos, se é que merecemos tê-los depois”. Taí uma boa pedida.

Caras & bocas

Vi umas fotos antigas do Vargas Llosa: bigodinho, costeleta, topete com gomalina, terno xadrez. Uma caricatura de cucaracha. A velhice — e um pouco de bom senso — melhorou a cara dele. Já o García Márquez continua com a mesma fachada bonachona de dono de armazém, apenas com melhores roupas. O Cortázar, com uma juventude que durou até os sessenta e poucos anos, mais os olhos de gato, foi mais sortudo nesse ponto. O Bioy Casares, tenista, conquistador, tinha cara disso mesmo. O Borges do começo era meio gorducho, bochechudo e, coitado, ainda usava lenço no pescoço. Olhando as fotos não dá pra suspeitar da mente de aço afiado. Mas na velhice, sim. Ou talvez não. É que comecei a ler Borges quando ele já era velho. Talvez simplesmente tenha me acostumado com aquele senhor triste, mas muito brincalhão.

A perguntinha fatal

Num texto no Blog da Companhia, contando que foi a uma exposição da Casa Cor e não viu nenhuma biblioteca nos projetos, Carol Bensimon acaba com esta queixa: “(…) se eu estou interessado no design da sua cadeira, por que você não está interessado no meu romance?”.

Sei que sou chato e implicante, mas algo aí me deixou com um pé atrás, como se a pergunta estivesse fora de esquadro. Me lembrei na hora daquela velha frase do Mário Quintana: “Querer que qualquer um seja sensível ao nosso mundo íntimo é o mesmo que estar sentindo um zumbido no ouvido e pensar que o nosso vizinho de ônibus o possa escutar”. Será que era isso, ou coisa parecida? No fundo, acho que o Quintana exagera, porque se a pessoa ao lado no ônibus for a Charlize Theron, haverá hordas de marmanjos interessadas no mundo íntimo dela.

Sim, a Carol está fazendo a pergunta em nome de todos os escritores, não apenas no seu. Isso tempera a queixa, mas uma queixa temperada continua uma queixa. É natural que a gente acredite ser o centro do universo, pelo menos até desmamar. Daí por diante é melhor encarar os fatos, como dizia uma tia minha. A verdade simples é que ninguém tem obrigação ou necessidade de ler uma linha do que escrevemos. O mundo e a literatura podem muito bem passar sem nossa participação. Ninguém é imprescindível. Antes de Borges, o mundo passava muito bem sem Borges. A maior parte do mundo hoje passa sem Borges.

Evidentemente, acho que o mundo seria melhor se mais gente lesse. Ou, se não melhor, pelo menos eu teria mais com quem conversar. Agora, esperar que o mundo compartilhe minhas preferências ou mesmo que outros leitores comunguem religiosamente comigo, cá pra nós, não dá pra levar a sério. Quer um exemplo grotesco? Se adorei a cadeira do sujeito, o problema é meu. Como a Charlize Theron não tem que dar pra mim só porque eu a acho bonita.

Spam

Me mandam uma propaganda, eu marco como spam. Todas as outras vindas da mesma fonte são mandadas pra pasta de quarentena pelo provedor. Mas isso só funciona com propaganda pé de chinelo. Por exemplo, se o Credicard me manda uma besteira, ou alguém usando o nome do Credicard me manda um vírus, o provedor não só deixa passar como acho até que aplaude. Esses dias, só pra tirar a teima, marquei mais de sessenta vezes um spam com o nome do Credicard. Não deu outra: o Uol ignorou minhas ordens. O sistema é tão burro ou sem-vergonha que não identifica um dos traços mais evidentes da sacanagem: a mesma mensagem mandada a intervalos regulares.

Autor

Ernani Ssó

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