
Na minha mesa, enquanto o indicador do mundo desliza frenético por telas infinitas na rede social, um objeto teima em pedir tempo: o livro. Ele não vibra, não notifica, não implora por reação. Ele apenas oferece uma coisa rara – profundidade.
Percebo, com certa inquietude, estarmos trocando a reflexão por um reflexo. Longe de mim aqui – até porque sou um assíduo frequentador – demonizar as redes sociais. Elas informam, conectam, mobilizam. Mas há um detalhe silencioso nesse novo hábito coletivo: quanto mais rápido consumimos, menos a vida nos atravessa. E sem ser atravessado, a gente só passa.
Foi nesse “hiato laboral” entre Natal e Ano Novo – esse território informal onde o tempo parece menos cobrador – que me encontrei com “51 Axiomas de Poder”, do Walter Longo. Um livro que não grita. Pergunta. Provoca. Convida. E, em um ambiente digital que nos treina para responder antes de pensar, ser convidado a pensar já é, por si, um ato de resistência.
Entre os axiomas expostos, um me pegou de jeito, como se tivesse sido escrito com a tinta da mais simples e desconcertante lógica: o sucesso está na história. Não no gráfico. Não no saldo. Não no aplauso. Na história.
Afinal, o que seria a definição de alguém “bem-sucedido”? Talvez não seja quem acumulou mais riqueza, mas quem construiu um enredo de vida que faz mais sentido. Talvez sucesso não esteja no quanto alguém ganhou – mas no que deixou. Não no que aparenta – mas no que representa. E, quando a gente desloca o olhar do extrato para a narrativa, algo muda: a vida deixa de ser vitrine e volta a ser caminho.
Longo sugere que alguém de sucesso poder ser evidenciado por uma linha simbólica do tempo, aparentemente simples, mas é gigantesca na sua essência: na infância, ouviu histórias; na vida adulta, fez história; na velhice, contou histórias; e na morte, virou história. Um ciclo completo. Não necessariamente famoso. Mas memorável. Não a vida que viraliza – a vida que vale.
E eu fico pensando: se hoje, ao abdicarmos da leitura, não estaremos também renunciando a algo maior do que páginas? Talvez estejamos abrindo mão de aprender a narrar a nós mesmos. De dar nome ao que sentimos. De sustentar uma ideia sem precisar de um like para validá-la.
No fim, a pergunta que fica – e que talvez mereça mais do que uma resposta rápida – é esta: que história estamos escrevendo enquanto corremos para não perder a próxima atualização?


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