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O trouxa e o mau caráter

Sempre que alguém é classificado como “trouxa”, é porque alguém tem de ser denunciado como desonesto, picareta, mau caráter. É pressuposto básico. Um não …

Sempre que alguém é classificado como “trouxa”, é porque alguém tem de ser denunciado como desonesto, picareta, mau caráter. É pressuposto básico. Um não vive sem o outro. Para ser enganado, é necessário um enganador. A ingenuidade de uns pressupõe a “esperteza” de outros. Por muito tempo no Brasil não se pensou assim – hoje se pensa? –, o que explica a reprodução desenfreada de corruptos. Brasileiro bom era brasileiro esperrrto, o que levava vantagem em tudo, cerrrto? Criou-se uma cultura de malandragem da qual levaremos muito tempo para nos livrarmos. Isto explica muita coisa. Explica, por exemplo, como temos um presidente da Câmara que só não é engraçado porque é perigoso. Explica a olímpica arrogância de um governo que deveria justificar, em pose penitente, seus sucessivos escândalos.

tNão é qualquer país do mundo que consegue ter, ao mesmo tempo, dois ministros sob investigação e uma fraude nos Correios, uma das poucas instituições em que o povo ainda confia, sem falar em casos anteriores que jamais serão esclarecidos. Há aí uma certa coerência. Nenhum povo no mundo julga-se tão malandro, esperto nos negócios, sedutor nas relações sociais e sexualmente privilegiado quanto o brasileiro. Deve ser por isso que estamos tão bem, com juros civilizados, impostos idem, desemprego baixo, atendimento de saúde qualificado, educação exemplar, violência urbana irrelevante, nada de trabalho infantil, fome ou falta de moradia.

Os governantes e políticos consideram-se impunes tanto quanto o brasileiro médio vê-se como malandro. Podendo levar vantagem, por que não? Pior nem é sermos assim, mas nos orgulharmos disso. Se um cidadão chega a uma certa idade e não enriqueceu, ninguém lhe louvará a honestidade e a ética praticadas ao longo de seis ou sete décadas, mas muitos o chamarão de otário, porque não soube se aproveitar da gandaia generalizada. Ganhar dinheiro, sabe-se, não depende de talento ou integridade. Muitas vezes tais atributos até atrapalham na trajetória rumo à fortuna. Melhor é ser esperto.

O brasileiro não deveria se surpreender tanto com seus políticos. Quem vota neles? Os mesmos que procuram levar vantagem em tudo no dia-a-dia. O congresso é a cara do povo. É isso aí, meu chapa, você, esperto e malandro, é a cara do Severino. E não há botox que resolva.

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* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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