Ética, respeito e bom senso não devem permear as inquietações de um homem que amealhou uma fortuna e se tornou ídolo da TV à custa de quadros de absoluto mau gosto. Celebridades de ocasião em trajes sumários passando a mão em “assistentes de palco”
dentro de uma banheira, ou mulheres com camiseta branca embaixo do chuveiro são exemplos do que Gugu Liberato (foto) entende por televisão popular. Não é preciso ser moralista empedernido para achar isso um pouco demais, mas enquanto ficasse por aí bastaria subtrair às crianças o controle remoto nas tardes de domingo. O problema é que certos caminhos não têm volta. Como diria o assassino ao ameaçar a vítima, depois que se mata pela primeira vez, fica fácil matar tantos quantos cruzem nosso caminho. Daí a contratar atores para se passarem por pessoas comuns pegas de surpresa no “táxi do Gugu”, expediente devidamente desmascarado pela Veja, é um passo bem pequeno. E daí a contratar atores para se fingir de integrantes do PCC e fazer ameaças de morte a autoridades e apresentadores concorrentes, é só outro passo.
A exemplo do Banco Central, que fixa determinada taxa de juros e estabelece “viés” de baixa ou de alta, Gugu desde sempre fixou uma taxa de baixaria que considerava adequada e estabeleceu um viés de alta, ou melhor, de baixa. Já seria muito grave colocar no ar declarações de bandidos dispostos a intimidar pessoas. Não vou entrar na questão das redes de TV que veiculam ameaças de terroristas como Osama Bin Laden, porque aí alguém vai dizer que Bush ameaça quem bem entende e todas as TVs do mundo divulgam, numa comparação inadequada de um fanático que vive na clandestinidade e outro que governa o maior país do mundo, eleito constitucionalmente, mas por outro lado a eleição ficou sob suspeita, enfim, é conversa longa e para outra ocasião. Fiquemos no Brasil. A criminalidade por aqui já é assunto explosivo demais sem que irresponsáveis com poder e dinheiro a alimentem em rede nacional.
Se for mesmo uma fraude, e parece já não haver dúvidas, há duas implicações mais sérias, entre tantas outras. A primeira: se os protagonistas das ameaças eram atores, então seguiram um roteiro, ou seja, disseram o que lhes pediram para dizer, o que torna Gugu o verdadeiro autor. Não adianta querer culpar diretor ou produtor, ele é quem assina o programa, e o Brasil todo sabe que, ao contrário de outros apresentadores, acompanha tudo de perto. Portanto, Gugu fez ameaças de morte a várias pessoas. A lei não prevê brincadeiras, ameaça é crime de qualquer modo. A segunda implicação: sendo eles atores, milhões de telespectadores foram feitos de bobos, e isso deve se enquadrar no código do consumidor, no mínimo.
Recentemente Sílvio Santos provocou rebuliço ao brincar com uma repórter fazendo declarações bombásticas. O caso é totalmente diferente. Embora a mídia seja corporativista, a verdade é que ele fez uma gozação com a repórter que, ou era muito burra e não percebeu, ou, e creio que seja este o caso, decidiu que usaria o material, não para expor a irresponsabilidade de um grande empresário e etc, porque não era disso que se tratava e ela sabia muito bem, mas para vender alguns milhares de exemplares a mais. Na imprensa às vezes é assim, o que deveria dar demissão resulta em promoção. Mas, embora os episódios pouco tenham a ver um com o outro, no imaginário popular ficam registradas duas grandes mentiras do SBT em curto espaço de tempo.
Gugu sonha com um canal próprio de TV. O sonho ficou distante, depois dessa. Sob bombardeio dos acusados que detêm espaços diário, casos de José Luiz Datena e Marcelo Rezende, o episódio dificilmente ficará por isso mesmo. Falam em passar o programa para depois das 22 horas. Falam que Sílvio exigiu retratação no ar e cogitou a hipótese de a partir de agora o programa ser gravado, e não mais ao vivo. Incrivelmente, Gugu esteve no ar durante horas no último domingo, sorridente como sempre, como se nada tivesse acontecido. A outros problemas, se soma a arrogância de não dar qualquer explicação. Esperava-se, no mínimo, um humilde pedido de desculpas sem que o chefe precisasse obrigá-lo a isso. Para completar, encerrou o programa tendo ao fundo a música cujo refrão é “tô nem aí”. Resta a quem tiver vergonha na cara não assistir mais ao programa já justamente apelidado de Domingo Ilegal.
No final da noite da segunda-feira 15, Gugu compareceu ao programa da Hebe para tentar explicar o episódio. Chorou e fez cara de menino que aprontou e está com medo de apanhar. Pelo semblante, deve ter levado uma reprimenda exemplar de Sílvio Santos, cujo sucesso deve-se, entre milhares de fatores, à possibilidade de se assistir ao seu programa com a família toda na sala sem correr qualquer risco de constrangimento. Hebe emitiu sinais de estar pouco à vontade. Gugu pediu desculpas, disse não ter visto a reportagem antes de ir ao ar, mencionou uma semana anterior difícil, o pai na UTI com embolia e a mãe com diverticulite, e informou ter afastado o chefe de reportagem, Vagner Mafesoli, “que pode ter sido enganado”. Disse ainda que não falou sobre o assunto em seu programa no último domingo para não ser acusado de usá-lo para ganhar audiência. Na verdade, foi o contrário, muitos que não o assistem abriram uma exceção porque esperavam uma justificativa, e ele sabe disso. De qualquer modo, perdeu para o Faustão, de acordo com o Ibope.
Sentado sozinho no célebre sofá da apresentadora, enxugando lágrimas e olhando para o chão, Gugu deve ter provocado piedade em muita gente. Datena ligou, o perdoou no ar, disse que vai retirar a queixa, fez a sua graça também, como diria Galvão Bueno. Talvez a pizza tenha ido para o forno. O melhor da noite foi uma frase de Hebe, que, por sinal, também se esvaiu em lágrimas: “Aceite um conselho de mãe, não sofra tanto por audiência, meu amor.” Uma gracinha, não?
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. Escreve semanalmente neste site.

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