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Os anões também começaram pequenos

Deu no UOL: “Anão vira exemplo de superação e joga partida de basquete”. É pouco. Quero ver manchetes como “Impotente vira exemplo de superação …

Deu no UOL: “Anão vira exemplo de superação e joga partida de basquete”. É pouco. Quero ver manchetes como “Impotente vira exemplo de superação e se torna pegador”. Ou “Careca vira exemplo de superação e abandona a peruca”. Ou “Morto vira exemplo de superação e ressuscita”.

Gostaria de acreditar que essa banalidade galopante fosse coisa do jornalismo de hoje em dia. Mas o jornalismo sempre pensou que todos nós estamos interessados em terneiros de duas cabeças, me entende? Ou no que a atrizinha fez pra secar doze quilos. Ou com quem se casaram esta semana as garotas de programa dos programas de tevê.

Você acha que é coincidência que nas histórias de ficção científica os alienígenas sejam sempre mais inteligentes que os terráqueos?

Belas letras

No fundo, no fundo, todo mundo está doidinho pra usar adjetivos impunemente. Todo mundo, digo. Não só escritores, mas jornalistas, publicitários, advogados. Juízes então nem se fala, vide os caras do Supremo. Ao menor descuido, todos atacam. Tenham cuidado. Aos leitores, recomendo uma coquilha, aquele protetor genital que os lutadores de MMA usam.

 

Futebol e literatura

Nélson Rodrigues disse que escritor brasileiro não sabe bater escanteio. E daí? Literatura não é feita com os pés. Me preocupa muito mais que a maioria não saiba escrever.

Dicionário do mau digitador

Sentrar. Sentar bem no meinho.

Camabalhota. Deve ser brincadeira pra camas de motel. Pessoal da melhor idade, cuidado.

Jaguar, aos 82 anos

Trechos da última entrevista do Jaguar.

Autoavaliação: “Sou um bom cronista de situações. Mas não sei desenhar. Nunca soube. Se tenho que fazer caricatura, copio do Chico, do Angeli, e as pessoas acham que é um estilo. No Brasil, qualquer um que dure dez anos num ofício é considerado grande profissional. Fui um fiasco nas escolas de desenho. Houve um instituto onde eu tinha que desenhar um busto de Voltaire e aí pus uma mosca no nariz dele. Fui expulso”.

Encontro com Fernando Henrique Cardoso: “Fernando Henrique eu entrevistei e depois ele me pediu para acompanhá-lo ao aeroporto. Estava orgulhoso de um relógio que tinha tudo. Dava para ver hora em Marte. Ele disse: ‘Olha, faz cálculos, tábuas, o diabo. Pode perguntar o que quiser’. Aí eu perguntei: ‘Que horas são?’ Ele ficou pasmo. Não respondeu até hoje”.

Prisão durante a ditadura: “Fiquei três meses na Vila Militar. (…) Consegui ler 60 páginas de Ulisses. Depois não retomei. Ulisses ou você lê na prisão ou não lê”.

BBB

Por que reclamar da exposição de seios, bundas e coxas? Eu não me sinto ofendido com isso. Não suporto é a exposição da burrice e da banalidade.

Robert Louis Stevenson

Acho que a literatura brasileira seria melhorzinha se lêssemos mais o Stevenson. Ele é claro, preciso, leve, divertido e consistente, ainda por cima. Ele esbanja inteligência, mas a usa de modo clandestino, não a esfrega em nosso nariz. Ele, como poucos, manja do silêncio.

Com tantas oficinas por aí, o pessoal devia colocar a questão pros alunos: por que Stevenson tem a admiração de Borges, Nabokov, Calvino, Henry James? Argumentem, meus filhos. Dez páginas pra próxima semana.

Só pra crianças

Muita gente diz, dando um desconto de liquidação: Stevenson é um bom autor pra crianças. Deve ser a segunda infância, grande época da melhor idade: quanto mais velho fico, mais o Stevenson me interessa.

Autor

Ernani Ssó

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