Terminei de assistir “The Last Dance”, série com 10 episódios produzida pela Netflix. O documentário conta a trajetória de Michael Jordan e da equipe do Chicago Bulls hexacampeão da NBA nos anos 1990. Para muitos, é considerado o maior time coletivo da história do basquete masculino em todos os tempos. Para tantos, o maior time da história dos esportes coletivos. Justifica-se. Além do maior jogador da história do basquete, Michael Jordan, tinha Scottie Pippen, um grande craque, coadjuvantes de ótimo brilho, como Dennis Rodman, John Paxson, Steve Kerr, Horace Grant e Toni Kukoc (em momentos diferentes) e um treinador que soube explorar a potencialidade de seus comandados. Não tinha para ninguém. O Bulls foi o maior time da época e entrava para a história com números e recordes incríveis. Jordan foi o Pelé do basquete.
Todo mundo que conhece um pouco da história do esporte mundial sabe dessa história. Sabe que não tem LeBron James ou Magic Johnson que consiga chegar perto do que foi MJ. Todo mundo sabe que os Bulls não tinham adversário, do conhecimento de Phil Jackson, o treinador, de tudo que a NBA representou naqueles anos 90 que já são distantes. Acompanhei de perto o frenesi em torno da liga norte-americana. Tinha boné, camiseta e colecionava recortes sobre a competição. A TV Bandeirantes transmitia os jogos, o All-Star Game e, ao vivo, os playoffs finais. Jordan estava perto de mim de uma maneira – por uma questão meramente cronológica – que Pelé não esteve. Senna esteve, depois Federer esteve, Tyson esteve, mas não Muhammad Ali. Mas, como sempre gostei de basquete, Jordan, o chiclete, a língua de fora, o salto que desafiava leis da física, a técnica, a velocidade e a impetuosidade para jogar, na minha frente, na televisão, um sonho de ter uma lenda do esporte atuando no tempo presente. Um ídolo que eu conhecia de perto. Conhecia?
Recentemente, escrevendo sobre Ayrton Senna e Roberto Carlos, ídolos inegáveis no esporte e na música do Brasil, um debate nas redes sociais veio à tona sobre a velha dicotomia entre vida e obra de figuras que foram geniais ou populares em seus ofícios, mas que, ao abrir a “vida privada” para a opinião pública, sempre haveria alguém para colocar um asterisco em suas condutas. É claro que o implacável tribunal das redes sociais faz isso com maestria, cada um em sua perfeição, algo próximo do que já escrevi em minha coluna.
O documentário apresenta um Jordan competitivo ao extremo. Para ele, tudo era motivo. Uma pequena provocação de um adversário virava uma guerra. A obsessão em ser o melhor dos melhores lhe tirava qualquer escrúpulo de conquistar as coisas – dentro de quadra, de forma legítima, diga-se de passagem. Jordan era um obcecado pela vitória, pelo sucesso. Mas não era só sobre vencer. Era sobre vencer com requintes de humilhação ao oponente, era massacrar o adversário. E era, sobretudo, refutar ao máximo qualquer cenário em que ele não fosse o melhor. Jordan passou sua carreira toda absolutamente obcecado em ser o melhor de todos.
Quando há uma obsessão no grau que Jordan tinha, há um preço a se pagar. Ele não era a figura mais simpática junto aos colegas. Certamente, depois de ver o documentário, passou a não ser também o exemplo que o imaginário construído pelos fãs de NBA considerava. Jordan jogava por ele, para ele e só potencializava o coletivo como uma forma de não admitir qualquer derrota. Queria ser o melhor e sabia que precisava que os outros o ajudassem para que esse sucesso fosse alcançado.
Cada um tem sua visão do que é sucesso. Para Jordan, sucesso é o topo dos topos. Para outros, basta uma vida assentada ou levar as coisas de maneira mais leve e divertida. O problema é que para alcançar esse nível de mentalidade que Jordan tinha, é preciso renunciar a sutis modéstias e espíritos coletivos que a boa alma desportiva pede. Jordan, um gênio, um ídolo, explode o espírito desportivo em nome de uma obsessão individual. Mas ele não deixa de ser gênio. Tampouco, deixa de ser ídolo. Se os limites do “espírito desportivo” foram ultrapassados por Jordan, significa que, veja só, temos ali um ser humano, que não é perfeito, mas que pode ser genial. Gênios não são perfeitos. O papel do gênio não é ser perfeito em todas as suas condutas. Eles precisam somente mudar uma história, romper um paradigma, construir uma mitologia em torno deles. Ou, simplesmente, ser o melhor. Mesmo que para isso, seja preciso corromper o próprio espírito. Não há pureza nos gênios.
