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Os limites do jornalismo popular

Por Carlos Guimarães

Em 20 de maio de 1991, o SBT estreia o programa jornalístico Aqui Agora, inspirado num formato que a TV Tupi já veiculara nos anos 1970. Com o slogan “um jornal vibrante, uma arma do povo, que mostra na TV a vida como ela é!”, o telejornal apresentava no vídeo um modelo arrojado para os padrões da televisão brasileira. Com chamadas agressivas, um visual rápido e pautas que iam do direito ao consumidor ao clássico jornalismo policial do Notícias Populares, o Aqui Agora praticamente inaugurou um gênero jornalístico que se disseminou pelas décadas seguintes: o telejornalismo popular.

A construção da TV brasileira vem do povo. Assim como o futebol, a televisão faz parte da identidade nacional. Ela se constitui pelos programas de auditório, pela telenovela, pelas transmissões de futebol e por tradições que perpassam décadas, formatam hábitos e formam gostos. Quando o Aqui Agora apareceu, foi um furor. O que se tinha, até então, de noticiário na TV, era com o padrão do Jornal Nacional, com aquele hermetismo aprendido nas faculdades de comunicação, encaixotado, engessado e rigoroso. O Aqui Agora era o contrário: ilustrativo, exagerado, com tomadas diferentes, texto que fugia à convenção do passagem-off-sonora, narrado em primeira pessoa, com poucos takes, como se fosse um programa integralmente ao vivo naquele horário.

O pesquisador francês Philippe Joron se deteve a estudar exaustivamente o que ele chama de “telerrealidade” do jornalismo brasileiro. Afinal de contas, por que o Aqui Agora se tornou tão popular. Resumidamente, Joron explica que aquele telejornal representa um fragmento explicável e didático da realidade do povo: ele é visto porque o povo se enxerga nele. Ao contrário das notícias de Brasília, dos jargões entediantes das matérias tradicionais e das pautas sobre o Iraque ou Estados Unidos, o Aqui Agora mostrava uma coisa que é banal, mas que segue rejeitada pela “intelligentsia” brasileira: o cotidiano.

Nada é mais forte que o cotidiano, que é aquilo que as pessoas enxergam. A telerrealidade é uma amostra do entorno dessas pessoas amplificada para a televisão, em rede nacional. O Aqui Agora foi um sucesso e gerou uma série de herdeiros que se proliferaram na TV brasileira dos anos 1990. De Ratinho a José Luiz Datena, o espaço para o “jornalismo popular” passou a ser cativo em praticamente todas as redes de televisão – a Globo foi a única que não abraçou tal formato.

A facilidade da fórmula também ajuda: um carismático apresentador, que se conecta com o povo com uma linguagem que, além de capturar o espectador, transmite uma proximidade com ele (“eu sou como vocês”); matérias sobre a violência do cotidiano, alguma coisa de utilidade pública e muita falação. Um guia pronto de como se faz o jornalismo popular. Ele ganhou espaço, tempo, notoriedade e poder. É possível identificar diversos comunicadores que se transferiram para a vida pública, por exemplo.

Entretanto, existe uma característica específica do gênero que merece uma reflexão especial: sendo ele um tipo de jornalismo menos engessado, é natural que os limites também sejam mais flexíveis. Quando todo limite é, digamos, estendido para um território perigoso, o deslize se torna regra. Ainda vivemos sob um conjunto de normas, morais e princípios que não nos dá o direito de manifestar uma suposta honestidade sob forma de preconceito ou falsa liberdade de expressão. Aliás, esse termo é amplamente distorcido nos dias de hoje. Nenhuma liberdade é plena se ela atinge a liberdade do outro. Inclusive na hora de se expressar.

Quando um comunicador, num programa que é de debates, e, que, no meu pensamento, é um programa popular (em linguagem, configuração, operação), fala aquilo que ofende os outros, ele não está sendo honesto. Ele está sendo leviano, antiético e irresponsável. A ética deve ficar em primeiro lugar, independente do formato. O jornalismo popular ganhou um terreno amplo nas redes de televisão por mérito próprio. Entretanto, nem o “novo normal” pode fazer dele um elemento que foge da realidade e das normas que mencionei. Não é um território livre ou uma “terra de ninguém”. Sequer consigo achá-lo mais corajoso que outros. É apenas bravata, grito e um revestimento de autenticidade que esconde a fragilidade de quem é irrelevante e tenta causar polêmica com tais impropérios.

Por mais que eu considere o Aqui Agora brilhante – porque foi – e condene os preconceitos que existem contra o jornalismo popular – que é necessário -, o inegável peso do Aqui Agora para a construção de um pseudojornalismo, que é muito mais voltado para um sensacionalismo de fígado que para as funções básicas da profissão. Se há desserviço, não há jornalismo. Há, novamente, apenas bravata. Para não dizer coisa pior.

Autor

Carlos Guimarães

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