Em 20 de maio de 1991, o SBT estreia o programa jornalístico Aqui Agora, inspirado num formato que a TV Tupi já veiculara nos anos 1970. Com o slogan “um jornal vibrante, uma arma do povo, que mostra na TV a vida como ela é!”, o telejornal apresentava no vídeo um modelo arrojado para os padrões da televisão brasileira. Com chamadas agressivas, um visual rápido e pautas que iam do direito ao consumidor ao clássico jornalismo policial do Notícias Populares, o Aqui Agora praticamente inaugurou um gênero jornalístico que se disseminou pelas décadas seguintes: o telejornalismo popular.
A construção da TV brasileira vem do povo. Assim como o futebol, a televisão faz parte da identidade nacional. Ela se constitui pelos programas de auditório, pela telenovela, pelas transmissões de futebol e por tradições que perpassam décadas, formatam hábitos e formam gostos. Quando o Aqui Agora apareceu, foi um furor. O que se tinha, até então, de noticiário na TV, era com o padrão do Jornal Nacional, com aquele hermetismo aprendido nas faculdades de comunicação, encaixotado, engessado e rigoroso. O Aqui Agora era o contrário: ilustrativo, exagerado, com tomadas diferentes, texto que fugia à convenção do passagem-off-sonora, narrado em primeira pessoa, com poucos takes, como se fosse um programa integralmente ao vivo naquele horário.
O pesquisador francês Philippe Joron se deteve a estudar exaustivamente o que ele chama de “telerrealidade” do jornalismo brasileiro. Afinal de contas, por que o Aqui Agora se tornou tão popular. Resumidamente, Joron explica que aquele telejornal representa um fragmento explicável e didático da realidade do povo: ele é visto porque o povo se enxerga nele. Ao contrário das notícias de Brasília, dos jargões entediantes das matérias tradicionais e das pautas sobre o Iraque ou Estados Unidos, o Aqui Agora mostrava uma coisa que é banal, mas que segue rejeitada pela “intelligentsia” brasileira: o cotidiano.
Nada é mais forte que o cotidiano, que é aquilo que as pessoas enxergam. A telerrealidade é uma amostra do entorno dessas pessoas amplificada para a televisão, em rede nacional. O Aqui Agora foi um sucesso e gerou uma série de herdeiros que se proliferaram na TV brasileira dos anos 1990. De Ratinho a José Luiz Datena, o espaço para o “jornalismo popular” passou a ser cativo em praticamente todas as redes de televisão – a Globo foi a única que não abraçou tal formato.
A facilidade da fórmula também ajuda: um carismático apresentador, que se conecta com o povo com uma linguagem que, além de capturar o espectador, transmite uma proximidade com ele (“eu sou como vocês”); matérias sobre a violência do cotidiano, alguma coisa de utilidade pública e muita falação. Um guia pronto de como se faz o jornalismo popular. Ele ganhou espaço, tempo, notoriedade e poder. É possível identificar diversos comunicadores que se transferiram para a vida pública, por exemplo.
Entretanto, existe uma característica específica do gênero que merece uma reflexão especial: sendo ele um tipo de jornalismo menos engessado, é natural que os limites também sejam mais flexíveis. Quando todo limite é, digamos, estendido para um território perigoso, o deslize se torna regra. Ainda vivemos sob um conjunto de normas, morais e princípios que não nos dá o direito de manifestar uma suposta honestidade sob forma de preconceito ou falsa liberdade de expressão. Aliás, esse termo é amplamente distorcido nos dias de hoje. Nenhuma liberdade é plena se ela atinge a liberdade do outro. Inclusive na hora de se expressar.
Quando um comunicador, num programa que é de debates, e, que, no meu pensamento, é um programa popular (em linguagem, configuração, operação), fala aquilo que ofende os outros, ele não está sendo honesto. Ele está sendo leviano, antiético e irresponsável. A ética deve ficar em primeiro lugar, independente do formato. O jornalismo popular ganhou um terreno amplo nas redes de televisão por mérito próprio. Entretanto, nem o “novo normal” pode fazer dele um elemento que foge da realidade e das normas que mencionei. Não é um território livre ou uma “terra de ninguém”. Sequer consigo achá-lo mais corajoso que outros. É apenas bravata, grito e um revestimento de autenticidade que esconde a fragilidade de quem é irrelevante e tenta causar polêmica com tais impropérios.
Por mais que eu considere o Aqui Agora brilhante – porque foi – e condene os preconceitos que existem contra o jornalismo popular – que é necessário -, o inegável peso do Aqui Agora para a construção de um pseudojornalismo, que é muito mais voltado para um sensacionalismo de fígado que para as funções básicas da profissão. Se há desserviço, não há jornalismo. Há, novamente, apenas bravata. Para não dizer coisa pior.

