O que os críticos dizem, eu não sei, mas acho que os melhores enterros da literatura estão nas novelas de George Simenon. Certo, é forte — eu não li nem meio por cento da literatura mundial. Mas li um bocado de clássicos e posso garantir, calmo e sereno: Simenon bate todos eles em matéria de enterros. Menos o Dostoievski, mas não estou lembrando direito, nem com paciência de ir conferir.
Descobri isso em “Cecília morreu”, novela traduzida no Brasil como “Crime na polícia”. A cena do enterro é patética, triste, engraçada. Simenon é seco, econômico. Nada do que é dito parece estar ali para causar algum efeito, mas apenas porque é assim que acontece, então ele registra sem ênfases. Outro belo enterro está em “Liberty Bar”. Aqui nada de tristeza. O cemitério é ao lado do mercado público. Então, num belo dia de sol, temos gente enterrando uma pessoa e gente vendendo peixe, frutas, legumes. Mais uma vez Simenon não sublinha o contraste. Ele apenas conta. Pra completar, “Maigret e o finado sr. Gallet”. Melhor eu abrir aspas para o trecho, na tradução de Paulo Neves:
“Depois dirigiu-se até Les Marguerites, não sem observar que um carro fúnebre de segunda classe, vazio, seguia o mesmo caminho que ele.
“Não havia ninguém nos arredores da casa, exceto um homem que empurrava um carrinho de mão e que parou ao ver o carro fúnebre e ficou esperando, por certo curioso de ver o cortejo.
“O sino no portão fora coberto por um pano. Na porta de entrada estava pendurado um tecido preto com as iniciais do defunto, bordadas em prateado.
“Maigret não esperava tanto aparato. À esquerda, no corredor, sobre uma bandeja, um único cartão com a ponta dobrada, o do prefeito de Saint-Fargeau.
“A sala onde o comissário estivera havia se transformado em capela-ardente, e os móveis tiveram de ser transportados para a copa. Tapeçarias escuras cobriam as paredes; o caixão estava colocado no centro, cercado de velas.
“Havia algo de misterioso, de equivocado, não se podia dizer bem por quê. Seria porque faltava um visitante e se sabia que ele não viria, embora o carro fúnebre já estivesse à porta?
“Aquele único cartão de visita, em falsa litografia! Todos aqueles ornamentos de prata! E, de cada lado do caixão, uma figura: a sra. Gallet à direita, vestida de luto, com um véu sobre o rosto e um terço de contas foscas entre os dedos; Henry Gallet à esquerda, também trajado de preto.
“Maigret avançou sem ruído, inclinou-se, molhou um ramo de buxo na água benta e o aspergiu sobre o caixão. Sentiu que a mãe e o filho o seguiam com os olhos, mas nenhuma palavra foi pronunciada.
“Depois ele foi até um canto, prestando atenção ao mesmo tempo nos ruídos de fora e nas expressões fisionômicas do jovem. De vez em quando os cavalos batiam os cascos no chão da aleia. Os agentes funerários conversavam em voz baixa, ao sol, perto da janela. E, na câmara mortuária, que somente as velas iluminavam, o rosto irregular do filho parecia ainda mais irregular, por causa da roupa preta que destacava a brancura doentia da pele.
“Os cabelos, separados por uma risca, estavam colados à cabeça. Tinha a testa alta, protuberante. Atrás das lentes grossas dos óculos com aro de tartaruga, era difícil perceber o olhar inquieto de míope.
“Às vezes a sra. Gallet cobria os olhos com o lenço, debaixo do véu, e as pupilas de Henry não se fixavam em parte alguma. Passavam pelas coisas e evitavam sempre o comissário, que ouviu com alívio os passos dos agentes funerários.
“Um pouco mais tarde, o caixão esbarrava nas paredes do corredor. Um pequeno soluço saiu da garganta da sra. Gallet, a quem o filho limitou-se a dar um tapinha no ombro, olhando para outro lado.
“Era violento o contraste entre o luxo do carro fúnebre e as duas figuras que se punham em marcha, precedidas de um mestre de cerimônia desconcertado.
“Continuava fazendo calor. O homem do carrinho de mão persignou-se e foi embora tomando um caminho lateral, enquanto o cortejo, mínimo, seguia por uma aleia bastante larga para ver desfilarem regimentos”.
Olhaí pessoal das oficinas de literatura. Aprendam. Ou meus mais sentidos pêsames.

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