Manchete de O Dia: “Morreram Chico Anysio”. Poderíamos dizer a mesma coisa de Millôr Fernandes, pois foi vários: frasista, dramaturgo, cronista, artista plástico, cartunista, tradutor, roteirista, poeta. Eu gostava muito de pelo menos três: o frasista, o cartunista e o artista plástico. Talvez tenha sido um gênio, como dizem, ou andado perto. Mas ao lado de observações de uma lucidez assombrosa, era capaz de dizer besteiras sem tamanho. Por exemplo: achava que se tirássemos os trocadilhos de Shakespeare não sobraria Shakespeare. Ele esquecia um pequeno detalhe: os personagens e suas histórias. Isso me parece grave num dramaturgo. Talvez seja por isso que as peças do Millôr me pareçam mais shows que peças realmente. De qualquer forma, a morte dele é uma grande perda. Se um terço dos velhinhos da Academia de Letras tivesse sua inquietação e audácia, nossa literatura andaria bem melhor.
Raízes do mal
Li pulando o romance do Maurice Dantec. Me chateei mortalmente. História de serial killer que mata por jogo transborda na literatura e na tevê. Quando ela vem contada numa linguagem enrolada, pseudocientífica, apenas pra esconder a vacuidade das análises e fazer dois dedos de água parecerem o mar dos sargaços, a coisa piora mais ainda. Depois, a investigação não tem pé nem cabeça: ou você já viu um detetive amador arrancar todas as informações da polícia sem dar nada em troca? Pra encerrar, tem um final catastrófico digno dos piores filmes americanos.
Variações da sorte
Como já contei aqui mesmo, não tive sorte com o último romance do Ricardo Piglia, Blanco nocturno. Também não tive sorte com Deuses americanos, do Neil Gaiman. O romance foi traduzido pra mais de vinte idiomas e recebeu os prêmios Nebula, Hugo e Bram Stoker de melhor romance. Muitos críticos saudaram como uma obra-prima. Devo estar maluco: não suportei cinquenta páginas. Como paguei cinquenta e poucos reais pelo volume, a aventura me custou mais de um real por página. Podia ter investido numa boa garrafa de vinho chileno. O texto de Gaiman é escolar, arrastado, cheio de detalhes inúteis e cheio de literatice do mais baixo nível. A história — bem, até onde li me pareceu aquelas enjambrações fabricadas tão ao gosto de Hollywood. Mas dei sorte, uma grande sorte, num saldo na Feira do Livro: comprei por dois reais O desconsolado, do Kazuo Ishiguro. Um livro surpreendente, engraçado, imprevisível. Seria perfeito se fosse mais curto. Vou comprar tudo o que ele escreveu.
Anistia
Estava na cara que não ia dar em nada a denúncia, por sequestro e tortura, contra o tal major Curió. Como dizia o velho Barão de Itararé, anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças e crimes que ele mesmo cometeu. Mas eu fiquei me perguntando como esse milico conseguiu o apelido de Curió. Há mistérios no aconchego da caserna que o próprio alto comando desconhece.
Carol Bensimon
Ela disse que é capaz de convencer alguém, que gostou de um livro, a detestá-lo, tal o vigor de seus argumentos. Um pouco antes, disse que não lê romances com muitos diálogos.
Eu, pelo contrário, só não gosto de diálogos ruins — forçados, chatos, sem humor e agilidade. Devo ser uma pessoa muito primitiva, tanto que jamais me ocorreria ler calculando quantos parágrafos um livro tem de descrições, diálogos ou monólogos. Paciência.
Agora, se os argumentos da Carol têm o mesmo vigor dessa afirmativa sobre romances com muitos diálogos, tenho minhas dúvidas de que ela seja capaz de convencer um bebê faminto a tomar uma mamadeira.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial